Aliança forçada em Santa Catarina pode nascer frágil e terminar menor
A tentativa de unir João Rodrigues, MDB e Esperidião Amin para 2026 pode até parecer forte no papel, mas carrega contradições históricas, risco de dissidências e um evidente cheiro de arranjo eleitoral, cenário que tende a favorecer ainda mais o favoritismo já consolidado de Jorginho Mello.

A articulação que começa a ganhar forma em Santa Catarina para a eleição de 2026 tem tudo para virar um grande erro político. A pré-candidatura de João Rodrigues ao governo foi confirmada nesta semana, já com a sinalização de aliança com o MDB e com o apoio de Esperidião Amin ao Senado, movimento anunciado publicamente em Florianópolis e tratado nos bastidores como tentativa de montar um bloco competitivo contra Jorginho Mello.
No papel, o desenho parece robusto. Na prática, a conta pode não fechar. MDB e PP carregam em Santa Catarina uma longa trajetória de rivalidade, disputas regionais e antagonismos que não desaparecem simplesmente porque a matemática eleitoral recomenda união. A política não é feita apenas de siglas, tempo de televisão e composição de chapa. Ela também é feita de memória, identidade partidária, bases locais e sentimento de pertencimento. E esse tipo de militância histórica não costuma aceitar alianças artificiais com a mesma naturalidade que dirigentes aceitam em reuniões de cúpula.
É justamente aí que mora o problema. Quando uma chapa nasce mais como solução de conveniência do que como convergência real de projeto, ela corre o risco de parecer oportunista. E, quando a percepção de oportunismo se instala, o eleitor catarinense tende a reagir com desconfiança. Santa Catarina não costuma ser terreno fértil para arranjos que contrariem de forma escancarada a coerência política. O eleitor do Estado, em grande medida, valoriza convicção, clareza de lado e coerência de trajetória. Quando a aliança parece montada apenas para somar forças contra um favorito, e não para apresentar uma proposta orgânica e unificada, o resultado pode ser o oposto do esperado.
O histórico recente ajuda a entender por que essa construção já nasce sob suspeita política. O MDB, que por décadas foi um dos grandes pilares da política catarinense, perdeu espaço nos últimos ciclos. O PP também já não tem o protagonismo automático de outros tempos. Enquanto isso, o PL de Jorginho Mello cresceu e assumiu centralidade no Estado. Nas eleições municipais de 2024, o PL conquistou 90 prefeituras em Santa Catarina e ultrapassou o MDB, tornando-se a legenda com o maior número de administrações municipais, um sinal claro de reorganização do mapa de poder catarinense.
Nesse contexto, talvez MDB e PP precisassem justamente do contrário do que agora ensaiam: um passo atrás, reorganização interna, reconstrução de identidade e fortalecimento gradual. Em vez disso, a tentativa parece ser a de forçar uma junção para voltar ao centro do tabuleiro por atalho. Só que atalhos, na política, costumam cobrar preço alto. Quando partidos que perderam densidade eleitoral tentam recuperar relevância apenas pela soma de estruturas, sem resolver suas contradições internas e sem pacificar suas bases, o mais comum é surgirem dissidências abertas ou silenciosas.
E elas tendem a aparecer. Parte do MDB catarinense ainda flerta com o campo governista estadual, enquanto outra parte busca reposicionamento fora dele. O próprio debate sobre o lugar do partido em 2026 já vinha sendo tratado como delicado nos bastidores, inclusive com disputas sobre vice e alinhamento estratégico. Numa operação desse tamanho, não é difícil prever desconforto de lideranças regionais, resistência de mandatários e falta de engajamento real de segmentos da militância. O mesmo vale para o eleitorado historicamente ligado a Amin, que pode até respeitar sua trajetória, mas não necessariamente transferirá esse capital de forma automática para uma composição heterogênea e costurada por conveniência.
O efeito colateral dessa movimentação pode ser exatamente o fortalecimento do adversário principal. Hoje, Jorginho Mello segue como favorito no Estado. Todos levantamentos divulgados nos últimos meses mostraram o governador liderando os cenários testados para 2026, com vantagem ampla sobre João Rodrigues.
Ou seja, se a oposição ao governador entregar ao eleitor uma chapa percebida como forçada, incoerente e atravessada por interesses individuais, o efeito pode ser ainda mais favorável ao atual ocupante da Casa d’Agronômica. Em vez de reduzir a vantagem de Jorginho, a união improvisada pode consolidá-la. E mais: abre espaço para que nomes periféricos ganhem oxigênio político, como Gelsom Merísio, que pode deixar a condição de coadjuvante e capturar parte do eleitorado que rejeita tanto o governismo quanto um bloco oposicionista artificial.
Há ainda um aspecto simbólico importante. João Rodrigues tenta se viabilizar como alternativa real ao governador, mas uma candidatura competitiva precisa transmitir autenticidade, direção e capacidade de formar maioria por adesão, não apenas por soma de descontentes. Quando a engenharia eleitoral fica visível demais, o eleitor percebe. E quando percebe, costuma punir.
No fim, a tal chapa dos sonhos pode virar a chapa da contradição. Porque uma aliança que desagrada bases, contraria rivalidades históricas, estimula dissidências e transmite cheiro de oportunismo dificilmente se sustenta com vigor até a urna. Em política, nem sempre juntar mais siglas significa somar mais votos. Às vezes, significa apenas juntar mais problemas. E Santa Catarina já deu sinais suficientes de que não costuma embarcar em voto cego quando a coerência fica pelo caminho.
