AMÉRICA EM ALERTA II: A LINHA DE FOGO SE MATERIALIZA

por Ernesto São Thiago

Em outubro do ano passado publiquei o artigo “América em Alerta: A Linha de Fogo se Aproxima”. A análise partia de uma constatação estratégica: formava-se um eixo geopolítico que conectava o regime venezuelano, a estrutura estatal iraniana e redes político-ideológicas latino-americanas. A hipótese central era simples. Se o eixo Caracas–Teerã fosse atingido, toda a arquitetura política construída em torno dele entraria em processo de desagregação.

Os acontecimentos posteriores indicam que aquele diagnóstico descrevia um processo real já em curso.

O primeiro movimento ocorreu no início de janeiro deste ano. Forças dos Estados Unidos executaram uma operação militar em território venezuelano que resultou na captura de Nicolás Maduro. A ação combinou ataques contra instalações militares, neutralização de posições defensivas e a extração do líder chavista. Com isso, foi removido o principal centro de gravidade político do chamado socialismo bolivariano.

Durante duas décadas, Caracas operou como núcleo de irradiação desse sistema. A partir da Venezuela fluíam petróleo subsidiado, financiamento político, cooperação ideológica e articulações diplomáticas que alcançavam grande parte da América Latina.

A linha de pressão estratégica havia alcançado o hemisfério ocidental.

Meses depois, como previsto naquela análise, um segundo vetor se manifestaria no outro lado do Atlântico.

Na sexta-feira que marcou o início da atual guerra no Golfo Pérsico, forças dos Estados Unidos e de Israel desencadearam ataques coordenados contra instalações militares, centros de comando e estruturas logísticas do regime iraniano. Nas horas seguintes, Teerã respondeu com lançamentos de mísseis balísticos e drones contra bases americanas e alvos israelenses na região.

Em poucos dias, o confronto assumiu escala regional. Centenas de alvos militares foram atingidos e sistemas antimísseis passaram a operar continuamente para interceptar ondas sucessivas de projéteis. Bases aéreas, depósitos de armamentos e centros operacionais tornaram-se objetivos prioritários em uma campanha destinada a degradar a capacidade ofensiva do regime iraniano.

Configurou-se assim um teatro de operações que se estende do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo oriental.

As repercussões econômicas foram imediatas.

Ao longo das duas últimas décadas, o Oriente Médio investiu pesadamente em diversificação econômica. Logística global, aviação internacional e turismo tornaram-se pilares da transição além do petróleo. Cidades como Dubai, Doha e Abu Dhabi consolidaram-se como plataformas intercontinentais de transporte e serviços.

O turismo regional passou a movimentar cerca de US$ 367 bilhões por ano, tornando-se componente central dessa transformação econômica.

A guerra interrompeu abruptamente parte desse sistema.

Milhares de voos foram cancelados, corredores aéreos passaram a ser evitados e companhias internacionais redirecionaram rotas. No domínio marítimo, o Estreito de Ormuz — por onde transita aproximadamente 20% do petróleo mundial — passou a operar sob permanente tensão estratégica.

O impacto mais visível surgiu no mercado energético europeu.

Desde a interrupção das importações de gás russo após a guerra da Ucrânia, a Europa passou a depender fortemente do gás natural liquefeito transportado por navios. Essa nova dependência tornou o continente particularmente sensível à segurança das rotas marítimas que atravessam o Golfo Pérsico.

Com a escalada militar na região, os custos de seguros marítimos dispararam, navios passaram a alterar rotas e parte do tráfego comercial passou a aguardar fora da zona de risco. Mesmo sem bloqueio formal do Estreito de Ormuz, o simples aumento da percepção de risco foi suficiente para provocar um choque energético.

Desde o início da guerra, o preço do gás natural europeu acumulou alta próxima de 39%, refletindo a vulnerabilidade estrutural do modelo energético europeu após o abandono do gás russo.

As consequências são amplas.

O gás natural é insumo essencial para geração de eletricidade, produção industrial e fabricação de fertilizantes. Sua valorização abrupta pressiona custos produtivos, alimenta a inflação energética e compromete a competitividade industrial do continente.

Ao mesmo tempo, países que haviam desativado usinas nucleares passaram a recorrer novamente a termelétricas, ampliando custos e emissões.

A participação de potências europeias no teatro de operações intensifica a incerteza estratégica. O envio de grupos navais franceses, incluindo porta-aviões, projeta o risco de ampliação do conflito e expõe o próprio continente europeu aos efeitos diretos da escalada.

Nesse ambiente de instabilidade, o turismo internacional reage rapidamente.

Fluxos que antes se dirigiam ao Oriente Médio e ao Mediterrâneo oriental passam a buscar destinos percebidos como seguros. Esse deslocamento tende a favorecer países afastados do teatro de operações.

O Brasil se encontra nessa posição.

O país reúne duas características estratégicas relevantes no atual contexto internacional: estabilidade territorial e capacidade de produção alimentar em escala global. Em meio à instabilidade energética e logística que começa a atingir Europa e Oriente Médio, o Brasil preserva sua condição de grande fornecedor agrícola e reafirma o papel frequentemente descrito como o de celeiro da humanidade.

Simultaneamente, a distância geográfica em relação às zonas de conflito pode tornar o território brasileiro destino mais atraente para parte do turismo internacional que se afasta das áreas de risco.

Os efeitos, entretanto, não se limitam a oportunidades econômicas. A elevação global dos preços da energia, a volatilidade cambial e a instabilidade dos mercados tendem a repercutir também sobre a economia brasileira.

É nesse cenário que o país ingressa no ciclo eleitoral deste ano.

A política externa do atual governo apostou em aproximações com regimes como Venezuela e Irã sob o argumento da construção de uma ordem internacional multipolar. À medida que esses regimes entram em colapso político ou enfrentam pressão militar direta, o custo dessas associações torna-se mais visível.

Internamente, o governo Lula enfrenta níveis crescentes de rejeição nas pesquisas e índices de desaprovação superiores aos de aprovação em diferentes levantamentos nacionais.

Paralelamente, o ambiente institucional também passa por alterações relevantes.

A composição do Tribunal Superior Eleitoral mudou. Ministros indicados durante o governo de Jair Bolsonaro assumem posições de liderança na Corte responsável pela condução do processo eleitoral.

No campo político, pesquisas recentes passaram a apontar o senador Flávio Bolsonaro, filho primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro, como nome competitivo em cenários de primeiro e segundo turno.

Ao mesmo tempo, avançam investigações financeiras envolvendo o Banco Master, com decisões judiciais que determinaram quebras de sigilo bancário relacionadas ao filho do presidente.

O quadro resultante combina três vetores estratégicos.

Primeiro, a compressão geopolítica do eixo Caracas–Teerã.

Segundo, a reorganização econômica provocada pela guerra no Oriente Médio e pela crise energética europeia.

Terceiro, um ambiente eleitoral doméstico marcado por desgaste político e rearranjos institucionais.

Nesse contexto, cresce entre analistas a expectativa de que o próximo regime a enfrentar crise estrutural no hemisfério possa ser o cubano. Durante anos, a economia da ilha dependeu do petróleo subsidiado venezuelano e de fluxos financeiros associados ao eixo bolivariano. Com a queda de Maduro e o enfraquecimento dessas fontes de sustentação, Havana passa a enfrentar pressões econômicas e sociais cada vez mais intensas.

Não são poucos os observadores que consideram plausível que uma ruptura política em Cuba ocorra ainda antes das eleições presidenciais brasileiras.

Se a análise publicada em outubro antecipou corretamente o choque estratégico que atingiria Caracas e Teerã, resta observar se a terceira dimensão daquela previsão também se confirmará.

A linha de fogo não apenas se aproximou da América.

Ela cruzou o Caribe, atravessou o Atlântico e já começa a redefinir o equilíbrio político do hemisfério.

A próxima etapa desse processo poderá ser decidida nas urnas brasileiras.

(*) Ernesto São Thiago é Oficial R/2 do Exército Brasileiro; certificado pela Escola Superior de Guerra em Estudos Estratégicos de Defesa; membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina; ex-presidente da Sociedade Amigos da Marinha em Santa Catarina (SOAMAR-SC); ex-diretor jurídico da Sociedade Amigos da Marinha do Brasil (SOAMAR Brasil); agraciado com a Medalha Amigo da Marinha.

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