ATÉ QUANDO AMIN VAI TRUCAR?
Ernesto São Thiago, advogado

Santa Catarina vive um momento de nitidez política rara. O estado consolidou uma hegemonia da direita e, dentro dela, a liderança do movimento bolsonarista tornou-se eixo estruturante. Com o apoio explícito de Jair Bolsonaro às pré-candidaturas ao Senado de Caroline De Toni e Carlos Bolsonaro, a base conservadora recebeu um sinal inequívoco de unidade estratégica. A partir daí, a discussão deixou de ser mera especulação e passou a ser coerência.
Em ambientes políticos identitários, hierarquia não é formalidade. É método de preservação de força. Quando a liderança define o rumo, espera-se convergência. Se figuras que se apresentam como bolsonaristas de carteirinha, como João Rodrigues e Esperidião Amin, optam por caminhos paralelos, o gesto ganha significado que ultrapassa a autonomia legítima. Passa a ser lido como desalinhamento estratégico.
A matemática eleitoral é objetiva. Santa Catarina elegerá dois senadores. O eleitor vota em dois nomes. Se o segundo voto da direita se fragmenta, abre-se a possibilidade concreta de vitória da esquerda, representada por Décio Lima, mesmo em um estado onde o campo conservador é majoritário. Não se trata de teoria conspiratória, mas de aritmética política.
Essa possibilidade foi explicada com clareza pelo articulista Derly Massaud da Anunciação, executivo do Grupo ND e hoje colunista do ND. Em sua análise, Derly demonstrou como a dispersão do segundo voto pode alterar completamente o resultado final, permitindo que um campo minoritário capitalize a divisão do campo majoritário. É uma equação simples, mas frequentemente ignorada por vaidades ou projetos individuais.
Há ainda um elemento humano que precisa ser considerado. Para Amin, esta possivelmente é a última grande disputa majoritária de sua longa trajetória pública. A lógica do tudo ou nada é compreensível sob o prisma pessoal. Quando se acredita estar diante da última oportunidade, o risco parece menor. O problema é que, na política, o risco raramente é apenas individual.
O verdadeiro patrimônio de uma liderança histórica não é o mandato, mas a biografia. Amin construiu ao longo de décadas uma imagem respeitada por setores da direita, do centro e até por parcelas da esquerda catarinense. Se, por insistência em candidatura que divida o campo majoritário, seu nome vier a ser associado a uma eventual vitória da esquerda, o impacto simbólico poderá ser irreversível. A política é implacável com quem é percebido como responsável por derrotas estratégicas.
Existe alternativa racional. Um passo atrás pode significar dois à frente. A candidatura à Câmara dos Deputados é viável, preserva capital político e mantém influência nacional. Em um cenário em que nomes como Flávio Bolsonaro despontam no plano presidencial, a presidência da Câmara torna-se posição de enorme poder institucional. Trata-se de influência real, capacidade de articulação e legado duradouro.
O truco ensina algo essencial. Não vence quem trucar todas as mãos. Vence quem lê a mesa, calcula o risco coletivo e sabe a hora de baixar as cartas. Coragem é virtude. Prudência estratégica é inteligência.
Em Santa Catarina, o risco maior não está na força da esquerda, mas na fragmentação da direita. A pergunta permanece.
Até quando insistir em trucar quando o que está em jogo já não é apenas uma cadeira no Senado, mas a própria história construída ao longo de décadas?
