COALIZÃO ANTICARTÉIS DAS AMÉRICAS E O RISCO DE ISOLAMENTO ESTRATÉGICO DO BRASIL

Ernesto São Thiago, advogado
Diplomado pela Escola Superior de Guerra em Estudos Estratégicos de Defesa.

A proclamação assinada em 7 de março de 2026 pelo presidente Donald Trump inaugura uma nova arquitetura de segurança no hemisfério ocidental. O documento formaliza a criação de uma coalizão continental para combater cartéis e redes criminosas transnacionais, reunindo ao menos 17 países das Américas em um sistema integrado de inteligência, sanções financeiras e cooperação operacional contra o narcotráfico internacional.

A premissa estratégica dessa iniciativa é clara: os grandes cartéis e facções criminosas deixaram de ser organizações locais e passaram a operar como estruturas transnacionais com enorme capacidade financeira e logística. Redes como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho controlam rotas internacionais de drogas, sistemas sofisticados de lavagem de dinheiro e estruturas empresariais que movimentam bilhões de dólares em diversos continentes.

Investigações recentes no Brasil indicam a dimensão desse ecossistema. A Polícia Federal apura, por exemplo, operações cambiais de cerca de R$ 2,8 bilhões realizadas por meio do Banco Master para uma empresa investigada por lavagem de dinheiro ligada ao PCC e ao grupo jihadista Hezbollah. O caso integra um conjunto mais amplo de investigações sobre redes financeiras utilizadas por organizações criminosas para movimentar recursos através de criptomoedas, empresas offshore e operações de comércio exterior.

Esse tipo de conexão revela um fenômeno já estudado por especialistas em segurança internacional: a convergência operacional entre narcotráfico e grupos jihadistas. A cooperação ocorre principalmente em três áreas — fornecimento de armas, lavagem de dinheiro e logística internacional — utilizando as mesmas rotas clandestinas, os mesmos sistemas financeiros paralelos e as mesmas estruturas de transporte.

É justamente esse ecossistema criminal que a nova estratégia americana pretende atingir por meio da classificação dessas organizações como “Foreign Terrorist Organizations” (Organizações Terroristas Estrangeiras) dentro da legislação dos Estados Unidos. Essa designação amplia drasticamente os instrumentos jurídicos disponíveis, permitindo congelamento global de ativos, bloqueio de transações financeiras e responsabilização criminal de indivíduos ou instituições que ofereçam apoio material ou logístico a essas redes.

O ponto sensível para o Brasil é que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não apenas tem resistido a classificar essas facções como organizações terroristas na legislação brasileira, como também tem atuado diplomaticamente para tentar impedir que os Estados Unidos adotem essa classificação em sua própria legislação.

Essa posição pode gerar consequências relevantes. Se Washington avançar na classificação e consolidar a nova coalizão hemisférica, o Brasil corre o risco de tornar-se um ponto de fricção dentro dessa arquitetura de segurança. Países como Argentina e Paraguai já classificaram PCC e Comando Vermelho como organizações narcoterroristas e reforçaram suas fronteiras com o Brasil.

Mais do que um debate jurídico, trata-se de uma questão estratégica. Caso a nova política americana avance, indivíduos, empresas ou instituições financeiras que mantenham relações com essas organizações poderão enfrentar sanções internacionais, congelamento de ativos e investigações transnacionais.

Nesse cenário, o Brasil pode acabar sofrendo os efeitos da nova doutrina de segurança hemisférica mesmo sem aderir formalmente a ela.

E, em um mundo em que o crime organizado opera cada vez mais como uma rede global integrada, permanecer à margem dessa arquitetura pode transformar o país não apenas em um ponto vulnerável do sistema, mas também em um alvo crescente de pressão internacional.

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