Crescimento fraco hoje pode significar aperto maior amanhã

Com projeção de PIB de apenas 1,6% em 2026, juros ainda muito altos e dívida pública em trajetória de alta, o Brasil caminha para um 2027 potencialmente mais difícil no bolso, no emprego e na sensação geral de bem-estar econômico.

Imagem gerada por IA

Quem olha apenas para o número frio do PIB pode não perceber a dimensão do problema. Mas um crescimento de apenas 1,6% em 2026, como projeta o Banco Central em seu Relatório de Política Monetária de dezembro, está longe de representar a velocidade de que o Brasil precisa para gerar prosperidade mais ampla. É um avanço modesto para um país grande, desigual e com enorme carência de emprego de qualidade, renda consistente e investimento produtivo.

Quando a economia cresce pouco, o efeito não aparece só nas planilhas. Ele se espalha pela vida real. Crescimento fraco normalmente significa menor capacidade de abertura de vagas, mais dificuldade para melhorar salários e maior risco de expansão da informalidade. O próprio FMI projeta para o Brasil inflação média de 4% e desemprego de 7,3% em 2026, combinação que ajuda a explicar por que tanta gente pode continuar sentindo a economia pesada mesmo sem uma recessão formal.

O cenário fica ainda mais complicado porque esse crescimento baixo convive com juros muito elevados. Em abril, o Copom fixou a Selic em 14,50% ao ano e afirmou que, para levar a inflação à meta, será necessária uma política monetária “significativamente contracionista por período bastante prolongado”. Isso significa crédito caro, prestação mais alta, menos consumo e menos disposição das empresas para investir.

Essa trava aparece inclusive nas projeções do próprio Banco Central. Para 2026, a estimativa oficial é de crescimento de apenas 1% da Formação Bruta de Capital Fixo, indicador que mede o investimento em máquinas, equipamentos, construção e ampliação de capacidade produtiva. Em outras palavras: o país até cresce, mas cresce com dificuldade para formar a base do crescimento futuro. E quando o investimento produtivo anda devagar, o 2027 tende a herdar uma economia mais cansada e menos preparada para reagir.

Há também o lado fiscal, que ajuda a compor esse ambiente de mal-estar. O Anexo de Metas Fiscais do PLDO 2026 projeta a Dívida Bruta do Governo Geral em 81,8% do PIB em 2026 e 83,6% em 2027, com trajetória crescente até 2028. O próprio documento deixa claro que a estabilização depende de superávits primários a partir de 2027 e do aprofundamento de medidas de revisão de gastos e aumento de receitas. Ou seja: o quadro fiscal segue pressionado e não oferece folga.

Isso importa porque crescimento tímido arrecada menos do que um país em expansão vigorosa. E, quando a arrecadação cresce pouco, mas as pressões por gasto continuam elevadas, a conta pública fica mais sensível, os prêmios de risco aumentam e os juros tendem a permanecer altos por mais tempo. Forma-se então um círculo ruim: o país cresce pouco, arrecada menos do que precisa, convive com dívida maior, mantém juros elevados e volta a frear o próprio crescimento.

O desconforto aumenta quando se compara esse desempenho com o resto do mundo. Em janeiro, o FMI projetou crescimento global de 3,3% para 2026 e 3,2% para 2027. Se o Brasil avançar apenas 1,6%, ficará bem abaixo desse ritmo. Isso ajuda a ampliar a sensação de estagnação, porque o cidadão não mede a economia apenas por indicadores técnicos. Ele mede pela percepção concreta de melhora de vida. E, quando a renda não avança como deveria, o crédito segue caro e o emprego melhora pouco, a sensação geral é de país parado.

Por isso, dizer que 2027 pode ser ainda pior não é mero exagero retórico. É uma leitura plausível de um cenário em que o crescimento já nasce fraco, o juro continua alto, o investimento segue contido e a dívida pública ainda sobe. O problema não é apenas 2026 entregar pouco. O problema maior é 2026 preparar um terreno ainda mais hostil para o ano seguinte.

Economicamente, o alerta é claro. Sem aceleração consistente da atividade, sem ambiente mais favorável ao investimento e sem melhora estrutural das contas públicas, o Brasil corre o risco de entrar em 2027 com mais cansaço do que esperança. E, para a população, isso quase sempre se traduz da mesma forma: menos oportunidade, mais aperto e uma crescente sensação de que o futuro demora demais para começar.

Sobre o autor

Compartilhar em: