Eleitor merece proposta, não baixaria

Antes mesmo do início oficial da propaganda eleitoral, a pré-campanha de 2026 já dá sinais de que a disputa pode voltar a ser dominada por ofensas, ironias e provocações, quando o país precisa exatamente do contrário: seriedade, prioridade e compromisso com problemas reais.

Imagem gerada por IA

As campanhas oficiais para a eleição presidencial de 2026 ainda nem começaram. Pelo calendário do TSE, os partidos só farão convenções entre 20 de julho e 5 de agosto, os registros de candidatura vão até 15 de agosto, e a propaganda eleitoral nas ruas e na internet só começa em 16 de agosto. Mesmo assim, o debate público já foi rebaixado ao velho roteiro da provocação fácil e do ataque pessoal.

Foi exatamente isso que se viu quando o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, comparou Lula a um “Opala velho”, dizendo que o presidente seria um “produto vencido” que “não leva a lugar nenhum”. Em vez de a cena política aproveitar o momento para discutir o que pretende fazer com impostos, segurança, saúde, educação, emprego e produtividade, o episódio virou mais um capítulo da disputa por manchetes e cortes para redes sociais.

A resposta do presidente Lula veio na mesma toada. Ao rebater a provocação, disse que não se ofendia e ironizou Jair Bolsonaro, afirmando que o ex-presidente estaria “em desmanche”. O problema não está apenas no tom da réplica. Está no fato de que, mais uma vez, o centro da conversa deixa de ser o Brasil real para virar uma arena de frases de efeito, deboches e narrativas de torcida.

E a pergunta que interessa ao cidadão comum é simples: o que isso muda na vida de quem acorda cedo, pega ônibus lotado, faz conta para fechar o mês e convive com serviços públicos insuficientes? Nada. Absolutamente nada. O país entrou em 2026 com desemprego em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro e taxa de subutilização de 13,8%, o que mostra que ainda existe um contingente enorme de brasileiros fora do mercado ideal de trabalho ou trabalhando menos do que gostaria. Ao mesmo tempo, o PIB cresceu 2,3% em 2025, sinal de que o debate nacional deveria estar concentrado em como transformar crescimento em melhora concreta de renda, produtividade e qualidade de vida.

O eleitor brasileiro não precisa de candidatos que saibam humilhar melhor o adversário. Precisa de candidatos que expliquem, com objetividade, como vão controlar o gasto público sem paralisar serviços essenciais; como pretendem ampliar investimentos; o que farão para melhorar a educação básica; como enfrentarão o avanço do crime organizado; de que forma vão reduzir filas na saúde; e qual é o plano real para aumentar renda e oportunidades. Ataque rende clique. Proposta séria exige estudo, coragem e compromisso.

O mais preocupante é que esse tipo de degradação do debate não surge por acaso. Ela persiste porque produz resultado político. Desconstruir o adversário, muitas vezes, dá mais retorno eleitoral imediato do que apresentar metas claras, cronograma, custo e fonte de financiamento. Enquanto isso funcionar, a tentação da baixaria continuará enorme. E enquanto o eleitor aceitar esse jogo como se fosse normal, o desfecho será previsível: mais barulho, menos conteúdo; mais paixão organizada, menos cobrança racional; mais do mesmo.

Já passou da hora de o brasileiro exigir mais. Exigir entrevista com proposta, debate com profundidade, compromisso verificável e menos teatro de palanque. Quem quer governar o país não pode se apresentar apenas como o menos ruim ou o mais agressivo contra o rival. Precisa mostrar capacidade, equilíbrio e visão de futuro. O Brasil é grande demais, complexo demais e desigual demais para ser tratado como uma disputa de apelidos.

Em 2026, o eleitor terá uma responsabilidade que vai muito além do voto. Terá de decidir também qual tipo de campanha aceita consumir. Se continuar premiando o insulto, receberá insulto. Se passar a cobrar conteúdo, poderá forçar a política a oferecer conteúdo. No fim, a qualidade da eleição também depende da exigência de quem está do outro lado: o cidadão. E o cidadão brasileiro, definitivamente, merece algo melhor.

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