Endividamento recorde expõe o sufoco silencioso das famílias brasileiras
Com 80,2% das famílias endividadas e 29,6% já em atraso, o Brasil entra em 2026 sob um cenário de crédito caro, renda pressionada e risco crescente de inadimplência, sobretudo entre os mais pobres.

O novo recorde do endividamento das famílias brasileiras não é apenas um dado econômico. É um retrato social do sufoco cotidiano de milhões de lares. Em fevereiro, 80,2% das famílias declararam ter algum tipo de dívida, o maior patamar de toda a série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, iniciada em 2010. No mesmo levantamento, 29,6% afirmaram ter contas ou parcelas em atraso, interrompendo três meses de queda da inadimplência.
O dado mais preocupante é que o problema não está restrito ao simples acesso ao crédito. O que cresce agora é a dificuldade de sair dele. A própria CNC aponta que o ambiente é de aperto prolongado, com juros altos dificultando a amortização das dívidas e empurrando muitas famílias para um ciclo perverso: toma-se crédito para manter o consumo, mas o custo desse dinheiro reduz a capacidade de pagamento e amplia o risco de atraso. Entre os inadimplentes, 49,5% já estavam com dívidas em atraso havia mais de 90 dias em fevereiro, sinal de que o problema vem ficando mais persistente.
Também chama atenção a composição dessas dívidas. O cartão de crédito continua disparado como principal modalidade, citado por 85% das famílias endividadas, seguido por carnês de loja, crédito pessoal e financiamentos. Isso ajuda a explicar por que o quadro se deteriora com tanta velocidade: são linhas que, em muitos casos, carregam juros elevados e funcionam como um alívio imediato que cobra um preço muito mais pesado adiante.
Há ainda um dado social que precisa ser lido com cuidado. O avanço do endividamento em fevereiro foi puxado principalmente pelas famílias de renda mais alta, que usam o crédito para preservar padrão de consumo ou evitar a descapitalização. Mas a inadimplência segue castigando com mais força os brasileiros de renda baixa. No grupo com renda de até três salários mínimos, 38,9% tinham contas em atraso e 18,6% declararam não ter condições de pagar suas pendências. Isso mostra que, no Brasil, a dívida até pode se espalhar por todas as faixas de renda, mas o peso real do atraso continua sendo muito mais cruel para os mais pobres.
O cenário fica ainda mais delicado quando se observa o ambiente macroeconômico. O Copom fez uma pequena redução na taxa Selic, agora posicionada em 14,75% ao ano em março, reforçando uma política monetária dura justamente para conter a inflação. Juros nesse nível encarecem empréstimos, parcelamentos e o rotativo do cartão, comprimindo ainda mais o orçamento das famílias. Ao mesmo tempo, o Governo Central fechou 2025 com déficit primário de R$ 61,7 bilhões, o que mantém a discussão fiscal no centro das incertezas econômicas.
No ambiente externo, as pressões também aumentaram. O petróleo Brent voltou a operar acima de US$ 100 por barril em março, em meio à escalada das tensões no Oriente Médio, o que eleva o risco de novos choques sobre combustíveis, frete, energia e preços em geral. Para o consumidor brasileiro, isso significa mais um fator de corrosão da renda num momento em que o orçamento doméstico já trabalha no limite.
É verdade que programas de renegociação ajudam a aliviar parte do problema, mas eles não resolvem a raiz da crise. Sem renda mais forte, inflação controlada de forma sustentável, crédito menos caro e maior educação financeira, o país continuará apenas administrando sintomas. O resultado é um Brasil em que o endividamento deixa de ser exceção e vira regra, enquanto a inadimplência volta a crescer como consequência natural de um sistema que oferece crédito fácil na entrada e cobra caro demais na saída.
No fim das contas, o recorde de fevereiro não deve ser tratado como mera estatística. Ele revela que boa parte das famílias brasileiras está vivendo de equilíbrio precário, sustentando o presente com dinheiro do futuro. E quando quase oito em cada dez lares já carregam dívidas, o problema deixa de ser individual. Passa a ser um alerta econômico e social de grandes proporções.
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