Granja Faria — do sotaque de Lauro Müller à mesa do Brasil
Série “Gigantes de SC”

Em 2006, no Centro-Oeste do país, nascia uma granja que parecia mais um bom negócio do agro. A história ganhou sotaque catarinense alguns anos depois: em 2013, a Avícola Catarinense, fundada em 1989, passou a integrar o grupo e a operação fincou raízes em Lauro Müller (SC) — endereço que hoje abriga a sede. De lá pra cá, a Granja Faria transformou escala em padrão e construiu um portfólio que leva o ovo catarinense (e brasileiro) do campo à gôndola, diariamente.
O modelo tem duas frentes que se conversam: ovos comerciais (de mesa) e ovos férteis (que viram pintainhos). Em 30 de junho de 2025, a companhia reportava 5 milhões de caixas comercializadas no Brasil, 18,4 milhões de poedeiras alojadas e 14 unidades produtivas em 10 estados — um retrato de escala com capilaridade. Na outra perna, a produção de ovos férteis rondava 12 milhões por mês (cerca de 150 milhões por ano), com 1,6 milhão de matrizes. É logística, sanidade, ração, biossegurança e gente — muita gente — fazendo o simples funcionar todo dia.
Os números ajudam a entender a posição que a Granja Faria ocupa em Santa Catarina e no país. Em 2025, o grupo responde por cerca de 9% dos ovos consumidos no Brasil, com 34 unidades espalhadas e 2,7 mil colaboradores, e 16 milhões de ovos entregues por dia — escala que embute disciplina industrial e um pacto cotidiano com qualidade. O endereço da sede, em Lauro Müller (SC), não é detalhe: é símbolo de como a empresa conectou a força do agro catarinense a uma cadeia nacional.
A expansão veio por dentro e por aquisições. Nos últimos anos, entraram marcas e operações em PR, RS, MG, GO e RN — casos de Marutani, Stragliotto, Aviário Santo Antônio, Iana, Alexaves, Ovos Prata, BL, Katayama e, mais recentemente, a Vitagema (2024) e a Tamago (abr/2025) no Nordeste. Em paralelo, o grupo vem racionalizando o portfólio, migrando marcas como Alexaves, Ovos BL e Vitagema para bandeiras já consolidadas. Expansão com síntese: crescer sem diluir a identidade de cada praça.
No caixa, a curva também é de maturidade. No 1º semestre de 2025, a receita líquida cresceu 30% sobre 2024 e o EBITDA ajustado alcançou R$ 532,2 milhões (margem de 39,3%) — efeito de preço, ganho de eficiência e sinergias das aquisições. Não é um estalo: é a consequência de investir em biossegurança, padronização e gente treinada.
Do ponto de vista estratégico, a janela internacional se abriu com força via Global Eggs, holding controlada pelo fundador Ricardo Faria. Em março de 2025, a empresa acertou a compra da norte-americana Hillandale Farms por US$ 1,1 bilhão, após ter levado em 2024 o Grupo Hevo (Espanha). A conversa sobre IPO em Nova York chegou a ganhar tração no início de 2025, mas foi postergada enquanto o grupo digere as aquisições — a prioridade, agora, é consolidar a plataforma nas Américas e na Europa. Para Santa Catarina, isso significa algo simples e enorme: um HQ no Sul conectado a um ecossistema global de produção, tecnologia e mercado.
Se números contam, as pessoas explicam. De quem maneja lotes e monitora ambiência nas granjas a quem ajusta pasteurização e desidratação nas indústrias de processamento de ovos, há um esforço invisível que vira qualidade percebida lá na ponta — no restaurante, no pão de cada manhã, no alimento das crianças. Reconhecer essa história é reconhecer décadas de trabalho coordenado que fizeram da Granja Faria um caso nacional com DNA catarinense.
Linha do tempo — marcos essenciais
• 2006 — Fundação da Granja Faria (Nova Mutum/MT).
• 2013 — Avícola Catarinense S.A. (Lauro Müller/SC) integra o grupo; sede passa a radiar de SC.
• 2018–2019 — Consolidação multimarcas (Ares do Campo, Josidith, Stragliotto, Marutani, Aviário Santo Antônio, Iana).
• 2020–2021 — Ovos Prata (RS) e Alexaves (GO); criação da Fertifar e estreia do Eggy (fast-food de ovo).
• 2023 — Aquisições da BL (ES) e Katayama Alimentos (SP).
• 2024 — Compra da Vitagema (RN); avanço no NE.
• 2025 — Aquisição da Tamago (PE); plantel atinge ~20 milhões de aves (produção + recria).

Mais que uma sequência de marcos, a Granja Faria mostra o que Santa Catarina constrói quando faz escala com método e cuidado: alimento confiável, cadeia produtiva que puxa empregos e uma marca que carrega, no rótulo, a história de quem não desistiu de fazer bem feito — todo santo dia.
