Herança, Origem dos Males
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

“Se achamos que o nosso objetivo aqui, em nossa rápida passagem pela terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua própria família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.”
Tamãi morreu na quietude da madrugada. Não houve choro nem histeria. Só dor. Ainda assim, uma dor mansa, de quem aceita a vida em sua plenitude, inclusive a morte. Ele tinha vivido uma boa vida: banhara-se em rios de águas limpas, flechara muito peixe, caçara bichos de pelo e pena, dançara os mais lindos quarups, e – enquanto as forças e a vontade não lhe faltaram – balançara a rede em muitas tardes e noites. Isso no dizer dele próprio, no dia anterior à sua grande viagem…
Quando Tamãi morreu, já tinha concluído sua missão nesta terra. Ensinara aos filhos e netos as manhas da vida: a escolher a melhor madeira para um bom arco, a derrubar e escavar a árvore da ubá, a esgueirar-se silencioso no mato atrás da caça, a permanecer imóvel até a sombra do tambaqui escurecer a superfície da água para só então disparar a flecha. E ensinara-os também a acreditar na “voz de dentro”, que cada um tem, e que aponta caminhos para quem aprendeu a ouvi-la.
Do mesmo jeito simples, ensinara-lhes que só é da gente o que é feito com as mãos da gente, com o trabalho da gente. Por isso, todos entenderam como correto e natural quando os velhos da tribo queimaram seu barco e enterraram seu arco junto ao seu corpo.
Entre os caraíbas que trabalhavam no posto indígena, havia um jovem enfermeiro, chegado havia poucos meses, que a tudo observava, sem nem tudo compreender.
Algumas luas depois, Kariahú, viúva de Tamãi, foi juntar-se ao marido. Passada a quarentena do tempo dedicado à lembrança e ao respeito dos que haviam partido, a oca foi queimada, obrigando filhos, genros, noras e netos – que até então continuavam morando com Kariahú – a se repartir entre as ocas de outros parentes ou a construir sua própria morada.
– Simples assim… – Explicou “seo” Orlando ao jovem enfermeiro. – Se não tem herança, não tem por que juntar coisas; se não tem por que juntar, tem mais é que viver!
O jovem enfermeiro passou a noite espiando a lua cheia faiscando nas águas do rio e a pensar nas quantas coisas os pais – entre os caraíbas – deixam de fazer e viver com o pretexto de juntar uns trocados para facilitar a vida dos filhos…
História acontecida no Parque Nacional do Xingu, num tempo em que ainda se dançavam quarups.
