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A informação sobre a remuneração de Carlos Bolsonaro como dirigente do Partido Liberal passou a circular a partir de publicação do portal Metrópoles. O dado é real, público e juridicamente regular. Partidos políticos contratam e remuneram seus quadros com recursos do fundo partidário, desde que haja função efetiva, como ocorre em todas as siglas. Não há ilegalidade no fato.

O que chama atenção, porém, é o movimento de difusão. A repercussão vem sendo impulsionada por dois polos em tese distintos: de um lado, setores ligados ao PT; de outro, grupos alinhados à candidatura de Esperidião Amin. A convergência revela um alinhamento tático circunstancial. Não se trata da gravidade do fato, mas de sua utilidade política.

O timing é evidente. A exposição ocorre justamente quando o nome de Carlos Bolsonaro passa a ganhar força como alternativa ao Senado por Santa Catarina. Em período pré-eleitoral, fatos administrativos comuns são usados como instrumento de desgaste político.

Mas o ponto central é outro. A eleição ao Senado exige estratégia. Quando um mesmo campo político se divide, não surgem mais opções, apenas se enfraquece o conjunto e se abre espaço para o adversário.

E aqui entram elementos concretos do cenário. Partidos como PP, União Brasil, PSD e MDB mantêm alinhamento ou proximidade com o governo Luiz Inácio Lula da Silva. O próprio prefeito de Chapecó, o instável João Rodrigues, que antes rejeitava essa aproximação, hoje admite compor com um emedebista como vice ao Governo do Estado. A prática política fala mais alto que o discurso.

Há, porém, um ponto que precisa ser dito de forma clara. O tarifaço imposto por Donald Trump tinha, dentro do contexto político mais amplo, o objetivo de pressionar o cenário brasileiro e combater o lawfare apontado contra Jair Bolsonaro. Ao ir aos Estados Unidos atuar contra esse tarifaço, Esperidião Amin, na prática, lavou as mãos quanto a essa estratégia, mesmo sabendo que sua atuação contrariava um movimento que buscava beneficiar Bolsonaro no plano internacional.

Ou seja, naquele momento, ao se opor ao tarifaço, Amin acabou se colocando objetivamente contra uma estratégia que favorecia seu então aliado político.

E agora, o movimento se repete. Ao insistir em uma candidatura que fragmenta o campo, Amin novamente lava as mãos quanto às consequências práticas de seus atos, contribuindo diretamente para prejudicar a pré-candidatura de Carlos Bolsonaro, filho de seu antigo aliado, e ainda, de quebra, dar viabilidade eleitoral ao petista Décio Lima.

Nesse ambiente, não é difícil enxergar o risco de uma engenharia eleitoral que acabe lançando ao Senado, na prática, uma dobradinha formada por Esperidião Amin e Décio Lima, do PT, beneficiados diretamente pela divisão do campo adversário.

Para agravar, Amin pode estar desperdiçando uma janela estratégica rara. Havia uma construção possível junto ao grupo de Jair Bolsonaro para disputar a Câmara dos Deputados com apoio de Jorginho Mello e Flávio Bolsonaro, provável futuro presidente. Esse caminho não apenas ampliaria sua viabilidade eleitoral, como poderia levá-lo à presidência da Câmara dos Deputados e, por consequência, à condição de terceiro na linha sucessória da Presidência da República, com a possibilidade concreta de registrar em seu currículo o exercício, ainda que interino, da chefia do Poder Executivo nacional.

Ao abrir mão desse percurso e optar por um caminho que fragmenta o campo e reduz competitividade, Amin não apenas compromete o resultado coletivo, como também renuncia a uma oportunidade singular de projeção institucional no encerramento de sua trajetória política.

Esse diagnóstico não é isolado. Um dos mais poderosos empresários catarinenses, com atuação multissetorial e sem alinhamento ideológico à direita, já compreendeu com clareza a possibilidade concreta de Santa Catarina ter no Senado Carlos Bolsonaro, irmão do provável futuro presidente, e de Eduardo Bolsonaro vir a ocupar a embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Para ele, isso representa acesso direto ao núcleo de poder, com capacidade real de influência política e abertura de canais internacionais estratégicos.

Esse tipo de conexão institucional pode destravar projetos estruturantes, como a Viamar, além de impulsionar agendas logísticas e de desenvolvimento que dependem de articulação federativa de alto nível.

Ao fim, quem acredita que um voto em Esperidião Amin representa necessariamente oposição ao PT pode estar redondamente enganado. Na política real, os efeitos das escolhas importam mais do que as intenções declaradas

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