“Nem começamos a lutar”: a retórica do regime iraniano que mais revela desorganização do que força

Declarações maximalistas e ameaças vagas são um padrão em regimes de força, especialmente quando a realidade no campo de batalha é desfavorável; a própria TV estatal iraniana já foi usada para enviar mensagens de intimidação a Washington, enquanto comandantes da Guarda Revolucionária repetem discursos de “resposta dura” e “portas do inferno”, numa tentativa clara de sustentar o “efeito demonstração”.

Em pronunciamento na TV estatal iraniana, o comandante da Guarda Revolucionária teria dito que o Irã “nem sequer começou a lutar” e que “armas secretas ainda não foram reveladas”. Se a frase foi exatamente essa ou uma variação dela, o ponto central permanece: é uma narrativa que não conversa com os fatos quando o país já sofreu perdas estratégicas e está sob pressão militar contínua.

E é justamente aí que esta matéria se ancora: quando a realidade se impõe, regimes autoritários recorrem ao que lhes resta — propaganda, ameaça e grandiloquência.

A lógica é simples. Potências e forças armadas buscam o chamado “efeito demonstração”: a mensagem de que ainda têm capacidade de escalada e de dor. O problema é que, quando a retórica vira “superarma secreta” e “não começamos”, ela soa menos como estratégia e mais como tentativa desesperada de manter coesão interna, segurar a tropa e impedir que a base social enxergue fraqueza.

Esse tipo de discurso já apareceu em outras falas recentes atribuídas à cúpula militar iraniana: ameaças de que “as portas do inferno” se abririam e alertas para que EUA e Israel “evitem erros”, sempre com linguagem inflamada e difusa. Na prática, é o roteiro clássico: quanto maior o aperto, maior o volume do megafone.

E aqui entra a contradição que salta aos olhos do leitor. Quando um país perde liderança, sofre ataques sucessivos e enfrenta instabilidade de comando, dizer ao público que “nem começou” não é força — é ruído. É a demonstração tácita de que o regime tenta preencher o vazio com frases de impacto. A frase não serve para o inimigo; serve para o próprio regime.

No fim, a pergunta que interessa não é se existe “arma secreta”. É outra: se existe comando, coordenação e capacidade real de sustentar um conflito prolongado. Quando o discurso vira ilógico, muitas vezes ele está apenas anunciando o que ninguém quer admitir em voz alta: por dentro, o sistema já está rachado.

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