O Governador e a Professora

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Depois de pedir um estudo detalhado sobre o assunto, o governador determinou o corte dos cursos de mestrado e doutorado pagos com dinheiro público. O “pagos com dinheiro público” compreendia os cursos feitos por funcionários públicos que se afastavam da função, mas continuavam percebendo os salários. As poucas liberações eram feitas em caráter excepcional e precisavam de despacho do próprio governador.

Uma professora do Estado resolveu fazer mestrado. Entrou com pedido de licença remunerada, que foi indeferido pelo secretário de Educação, de acordo com orientação de governo.

A professora me procurou, pedindo para advogar a causa junto ao governador. Eu não estava inteirado do assunto, não sabia os porquês e não vi nenhum problema em defender a professora.

O governador explicou que os pedidos eram negados porque normalmente havia um logro sutil, no qual os prejudicados eram o contribuinte e os alunos. Como não entendi o raciocínio ele esmiuçou o assunto. Um curso de mestrado durava, em média, dois anos. Normalmente ele era “encompridado” com outro de doutorado. Na média, o professor ficava afastado, da sala de aula e do trabalho, por quatro anos. Ele recebia para estudar. Ao final dos cursos, auferia duas vantagens pessoais: passava a ganhar mais, porque tinha mais diplomas, e contava o tempo afastado do trabalho para se aposentar mais cedo. Aposentado, o professor aproveitava os diplomas de mestrado e doutorado para iniciar outra carreira, em universidades particulares ou na iniciativa privada.

– Eu não teria nada contra – finalizou – se os professores efetivamente repassassem para o Estado e para os alunos o que aprenderam nos cursos.

Retornei à professora, explicando-lhe por que o estado não estava liberando os cursos pagos. Ela concordou com o governador; realmente ele tinha razão. Mas ele não podia julgar todo mundo igual. Argumentou que nunca tinha pensado em usar o subterfúgio para lograr o Estado. Mais, ela se comprometia em repor os anos que permanecesse afastada, com salários pagos pelo Estado.

Voltei ao governador. Expliquei-lhe que ela tinha se comprometido a repor os anos pagos pelo Estado. Ele perguntou se eu acreditava mesmo nisso. Disse que sim.

– Sei que vou ter problemas porque vão surgir dezenas de outros pedidos iguais. Mas vou liberar esse. Não deveria, mas vou liberar. E não é por causa da professora, não. Até porque não acredito que ela irá repor esse tempo. Vou liberar por sua causa, para você aprender a lição. Pode demorar alguns anos, mas você vai descobrir que as pessoas esquecem o que lhes convêm.

O governador faleceu e eu esqueci o assunto. Anos depois, encontro a professora. Vivia agora em outro Estado. Conta que está aposentada, deixou o magistério, passou a trabalhar numa multinacional de alimentos, com rendimentos multiplicados. As palavras do governador ressoam – claras – nos meus ouvidos interiores. Eu lhe cobro a promessa de repor o tempo em que esteve afastada da sala de aula, recebendo salário.

– Ah, o governador morreu, esquece! – E deu de ombros.

História ocorrida quando eu era Secretário de Estado de Santa Catarina.

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