O país do faz de conta: dois anos depois, a enchente ainda não acabou para centenas de famílias no RS

Tragédia no Rio Grande do Sul expõe a distância entre sobrevoos, comitês, promessas e a vida real de quem ainda espera casa, segurança e obras concluídas.

Imagem gerada por IA

Toda tragédia no Brasil parece seguir o mesmo roteiro. Primeiro vêm as imagens fortes, a comoção nacional e a corrida de autoridades ao local. Depois aparecem os sobrevoos de avaliação, as entrevistas de colete, os comitês de crise, os anúncios de reconstrução, as promessas de recursos e os discursos emocionados. Por alguns dias, tudo parece urgente. Passado o impacto inicial, a câmera vai embora, a agenda política muda e quem perdeu a casa fica esperando que a promessa vire parede, ponte, drenagem, contenção, rua segura e moradia definitiva.

A enchente que devastou o Rio Grande do Sul entre o fim de abril e o início de maio de 2024 está prestes a completar dois anos e mostra, de forma concreta, esse país do faz de conta. A tragédia afetou mais de 2 milhões de pessoas, deixou 185 mortos e atingiu praticamente todo o território gaúcho. Ainda hoje, mesmo dois anos depois, cerca de 500 famílias ainda permanecem em moradias temporárias, enquanto o medo volta a cada chuva mais forte.

O problema não é apenas a casa que ainda não veio. É a sensação de que a vida ficou suspensa. Famílias que perderam tudo continuam morando de forma provisória, sem saber quando terão um endereço definitivo. Em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre, moradores relatam que ruas ainda alagam até com chuvas fracas, reacendendo a angústia de quem já viu a água invadir pátios, casas e memórias.

Ao mesmo tempo, governos apresentam números grandiosos. O governo estadual afirma ter garantido R$ 14 bilhões para ações do Plano Rio Grande, com 227 projetos e ações de reconstrução em municípios atingidos por calamidade. Também foram anunciados repasses para obras de recuperação e modernização de estruturas de proteção, especialmente em Porto Alegre e Canoas.

No campo habitacional, o governo federal informou que já contratou 10.588 moradias para famílias atingidas pelas enchentes, com R$ 2,1 bilhões destinados à modalidade Compra Assistida do Minha Casa, Minha Vida Reconstrução. Também há previsão de construção de outras 9.350 novas moradias no estado. São números importantes, mas a pergunta que fica para quem ainda vive de forma provisória é simples: quando a promessa chega na porta de casa?

A infraestrutura também revela a distância entre anúncio e entrega. Levantamento sobre a recuperação das rodovias estaduais afetadas aponta 48 obras previstas via Fundo do Plano Rio Grande, sendo 33 em estradas e 15 em pontes. Até fevereiro de 2026, nenhuma dessas 48 obras havia sido entregue; 19 estavam em andamento, 20 em fase de projeto e 9 em estudo de viabilidade.

É evidente que reconstruir um estado depois de uma tragédia climática dessa dimensão não é simples. Houve destruição de casas, pontes, estradas, escolas, sistemas de drenagem e estruturas de proteção. A complexidade técnica existe e não pode ser ignorada. Mas também é verdade que a população não vive de justificativa técnica. Quem perdeu tudo precisa de execução. Precisa de prazo cumprido. Precisa de obra pronta. Precisa voltar a dormir quando chove.

O Brasil precisa trocar a coreografia pela entrega. Menos palco e mais cronograma. Menos comissão e mais prestação de contas. Menos promessa repetida e mais obra concluída. A reconstrução não pode ser medida apenas pelo valor anunciado, mas pelo número de famílias que saíram da moradia temporária, pelas ruas que deixaram de alagar, pelas pontes entregues, pelos bairros protegidos e pela segurança devolvida a quem viveu o trauma.

Dois anos depois, a enchente ainda não passou para muita gente. Ela continua nas casas improvisadas, nas marcas de lama, nas obras que não terminaram e no medo que volta com qualquer temporal. O país do faz de conta é aquele que se emociona rápido, promete muito e executa devagar. O Brasil real, o das famílias atingidas, não precisa mais de sobrevoo. Precisa de chão firme.

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