Opinião: uma ONU que mais desune do que une caminha para uma crise de legitimidade

Criada para garantir paz e diálogo após a Segunda Guerra, ONU hoje é acusada de atuar com viés político, perde apoio financeiro de grandes doadores e arrisca ser substituída se não voltar à sua missão original.

DMA: IA

A Organização das Nações Unidas (ONU) nasceu em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, com um propósito nobre e claro: manter a paz e a segurança internacionais, promover a cooperação entre os países e evitar novos conflitos globais. Isso está expresso logo no artigo 1º da Carta da ONU, que fala em “manter a paz e a segurança internacionais” e “ajustar ou resolver, por meios pacíficos, controvérsias ou situações que possam levar a uma ruptura da paz”.

No papel, nada poderia ser mais necessário. Na prática, porém, a ONU entrou num terreno cada vez mais arenoso e politizado. Em vez de ser percebida como uma arena de equilíbrio, passou a ser vista, por muitos governos e parte expressiva da opinião pública, como uma organização que se aproxima e, em diversos temas, abraça um único espectro político-ideológico. Quando uma instituição que deveria ser de todos passa a ser percebida como instrumento de alguns, a reação é inevitável.

Os sinais dessa crise de confiança não são abstratos; aparecem nas contas. A ONU vive hoje uma dificuldade financeira crônica. O secretário-geral António Guterres propôs para 2026 um corte de US$ 577 milhões no orçamento central, equivalente a 15% das despesas, incluindo a eliminação de mais de 18% dos postos de trabalho, e atribuiu o quadro em grande parte aos atrasos de contribuições dos Estados-membros, em especial dos Estados Unidos. Só em 2024, a organização acumulou cerca de US$ 1,6 bilhão em atrasos, sendo o maior devedor justamente o país que, historicamente, foi seu maior financiador.

Esse movimento é reforçado por decisões políticas concretas. Em 2025, o governo norte-americano anunciou a retirada e o fim do financiamento a determinados organismos da ONU, como o Conselho de Direitos Humanos (UNHRC), a Unesco e a agência UNRWA, retomando uma postura de distanciamento que já tinha ocorrido em 2018. Não se trata de um país qualquer: os Estados Unidos respondem por cerca de 22% do orçamento regular da ONU e são, há décadas, o principal financiador individual da organização.

A desconfiança não vem só de Washington. A UNRWA, agência da ONU para refugiados palestinos, sofreu cortes ou suspensão de verbas de vários países ocidentais após denúncias envolvendo funcionários ligados aos ataques de 7 de outubro. Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Itália, Suécia e outros governos congelaram ou redirecionaram recursos, obrigando a própria ONU a admitir uma “crise de confiança” e a abrir investigações internas.

Quando grandes doadores congelam, reduzem ou redirecionam verbas, o recado é claro: não há mais confiança plena na forma como a ONU atua e se posiciona. E o problema não está apenas em uma agência específica; é um sintoma de algo mais profundo: a percepção de que a ONU, em várias de suas frentes, deixou de ser um árbitro confiável e tornou-se um ator político, muitas vezes alinhado a narrativas e agendas que não representam o conjunto das nações.

Importante frisar: o mundo precisa de instâncias multilaterais. Conflitos, crises humanitárias, pandemias, mudanças climáticas e migrações em massa exigem cooperação internacional. Mas cooperação não é submissão a uma visão única de mundo. Quando resoluções, relatórios e posicionamentos parecem pender sistematicamente para um lado do debate ideológico, países e sociedades que se sentem prejudicados reagem — e parte dessa reação hoje se manifesta na retirada de apoio político e financeiro.

O resultado é um paradoxo: a ONU foi criada para unir, mas, aos olhos de muitos, tem desunido mais do que unido, amplificando divisões, alimentando ressentimentos e perdendo a capacidade de mediação imparcial. Em vez de ser o grande fórum de convergência, corre o risco de se tornar um palco de discursos que satisfazem alguns governos e militâncias, mas afastam outros atores-chave que sustentam, com dinheiro e legitimidade, sua estrutura.

Na nossa visão editorial, a saída para esse impasse não é destruir o multilateralismo, mas recolocar a ONU no trilho de sua missão original:

  • foco na paz e segurança internacionais, acima de agendas ideológicas;
  • respeito genuíno à soberania dos Estados, dentro do marco dos direitos fundamentais;
  • atuação técnica, transparente e equilibrada em agências e programas;
  • compromisso com a pluralidade real de visões, e não com o monopólio de uma narrativa.

Se isso não acontecer, o risco é que a ONU veja crescer, ano após ano, um movimento de esvaziamento silencioso: menos dinheiro, menos apoio político, menos relevância. Em um cenário extremo, pode abrir espaço para que, no futuro, outra estrutura internacional seja construída para tentar cumprir o papel que a organização original deixou de desempenhar com credibilidade.

Por tudo isso, a mensagem é direta: a ONU precisa voltar a ser de todos, ou continuará a ser, na prática, cada vez menos de quase ninguém.


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