Passando o Brasil a limpo: a segurança pública custa caro e ainda entrega medo

O Brasil gasta dezenas de bilhões de reais por ano em segurança, mas continua convivendo com homicídios em patamar muito acima do padrão internacional, crimes patrimoniais em massa e violência sexual recorde, um retrato de um sistema caro, fragmentado e ainda insuficiente.

Imagem gerada por IA

Na área da segurança pública, o Brasil também precisa ser olhado sem maquiagem. Em 2024, o poder público gastou cerca de R$ 153 bilhões no setor, somando União, estados e municípios. Desse total, R$ 118,5 bilhões vieram dos estados, R$ 21 bilhões da União e R$ 13,5 bilhões dos municípios. Ou seja: recurso existe, e em volume muito alto. A pergunta central, portanto, não é só quanto se gasta, mas o que esse gasto está conseguindo devolver em proteção real ao cidadão.

No indicador mais universal da violência, o país segue em nível preocupante. O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 44.127 mortes violentas intencionais em 2024, com taxa de 20,8 por 100 mil habitantes. Houve queda de 5,4% em relação ao ano anterior, o que é positivo, mas o patamar continua muito alto para um país de dimensão continental que pretende ser potência econômica e institucional.

Quando o Brasil é comparado internacionalmente, o contraste é duro. A UNODC estima a taxa global de homicídios em 5,8 por 100 mil habitantes, enquanto os dados do Banco Mundial com base na UNODC mostram países desenvolvidos como Alemanha, Itália e Reino Unido girando em torno de 1 por 100 mil, o Japão abaixo disso e os Estados Unidos em torno de 5. Mesmo com metodologias não perfeitamente idênticas entre todas as bases, a conclusão é clara: o Brasil permanece muito acima do padrão das economias desenvolvidas e ainda em patamar comparável ao de países marcados por forte violência criminal.

E segurança pública não se resume a homicídio. Em 2024, o país registrou mais de 2,1 milhões de casos de estelionato, uma média superior a quatro por minuto, mostrando como o crime migrou fortemente para o ambiente digital e financeiro. No mesmo ano, houve 917.748 roubos e furtos de celulares, mesmo com queda de 13,4% frente ao ano anterior. É o tipo de estatística que ajuda a explicar por que o brasileiro sente insegurança mesmo quando a violência letal recua.

A situação é ainda mais grave quando se olha para a violência sexual. O Anuário 2025 apontou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2024, o maior número da série histórica iniciada em 2011. Isso equivale a uma vítima a cada seis minutos. É um dado devastador, que mostra um país onde a insegurança não está apenas nas ruas, mas também dentro de casas, famílias e relações de confiança.

No fim, o retrato é incômodo: o Brasil investe muito em segurança pública, mas ainda convive com homicídios muito acima da média mundial, criminalidade patrimonial massiva e violência sexual em patamar recorde. Isso revela um sistema que consome recursos em escala bilionária, mas ainda não conseguiu entregar ao cidadão aquilo que deveria ser básico: previsibilidade, proteção e paz cotidiana. Passar o Brasil a limpo, nesse setor, é admitir que reduzir estatísticas é importante, mas ainda está longe de significar que o país se tornou seguro.

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