Passando o Brasil a limpo: no saneamento, o atraso ainda adoece o país
O Brasil avançou, mas continua convivendo com um déficit de saneamento incompatível com seu tamanho e sua economia, realidade que pesa mais sobre os mais pobres, aumenta gastos em saúde e mantém o país atrás de padrões básicos já superados em boa parte do mundo.

Se existe um setor que revela, sem maquiagem, o grau real de desenvolvimento de um país, esse setor é o saneamento básico. E o retrato brasileiro ainda é ruim. Dados do SINISA de 2024 mostram que 84,1% dos brasileiros têm acesso à água tratada, mas só 56,7% contam com coleta de esgoto. Em outras palavras: cerca de 90 milhões de pessoas ainda vivem sem coleta de esgoto no país. Para piorar, 39,5% da água tratada se perde antes mesmo de chegar às residências, um desperdício gigantesco em um serviço que deveria ser essencial.
O problema não é apenas de conforto urbano. É de saúde pública. Em 2024, o Brasil registrou 344,4 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, com custo de R$ 174,3 milhões ao sistema de saúde. Isso significa que a falta de rede, tratamento e distribuição eficiente não apenas reduz qualidade de vida, mas também empurra milhares de brasileiros, especialmente os mais vulneráveis, para dentro dos hospitais.
A conta social é ainda mais cruel nas periferias, áreas rurais e regiões mais pobres. Crianças, idosos e famílias de baixa renda são os mais expostos à água imprópria, esgoto a céu aberto, contaminação e doenças de veiculação hídrica. Ou seja: a deficiência do saneamento aprofunda desigualdades e perpetua um ciclo em que pobreza e precariedade se alimentam mutuamente. Essa leitura decorre da associação entre falta de acesso, internações e desigualdade territorial mostrada pelos estudos do setor.
Quando o Brasil é comparado com outros países, o atraso fica ainda mais evidente. Segundo o Banco Mundial, o país tinha em 2022 cerca de 87% da população com acesso a serviços básicos de saneamento, enquanto a média da América Latina e Caribe já estava em 89%, a do mundo em 82%, e a dos países de alta renda em 98% em 2024. No caso da água potável básica, os dados mais recentes do Banco Mundial para o Brasil apontavam 97% em 2020, índice melhor, mas ainda distante da universalização que deveria ser o mínimo em uma das maiores economias do planeta.
Isso mostra uma contradição tipicamente brasileira: o país é grande, urbano, arrecada muito e já sabe exatamente onde estão seus gargalos, mas ainda não consegue transformar planejamento e investimento em universalização efetiva. Em 2024, os investimentos em saneamento ficaram em R$ 29,1 bilhões, valor relevante, mas ainda insuficiente diante do passivo acumulado e da meta legal de universalização.
No fim, passar o Brasil a limpo no saneamento é reconhecer que esse não é um problema secundário. Ele afeta saúde, produtividade, meio ambiente, educação e dignidade. País nenhum se torna plenamente desenvolvido convivendo com esgoto sem coleta, água perdida em escala industrial e centenas de milhares de internações evitáveis. No caso brasileiro, saneamento básico ainda não é só obra de infraestrutura. Continua sendo retrato de atraso estrutural.
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