PONTES, NÃO RUPTURAS

A deputada estadual catarinense Ana Campagnolo é, sem dúvida, um excelente quadro da direita, e muitas das críticas que faz, inclusive sobre a chamada “lei da misoginia”, têm fundamento e merecem ser debatidas com seriedade. No mérito, há pontos relevantes. O problema não está no conteúdo, mas na forma e, principalmente, nas consequências políticas dessa forma.
A exposição reiterada de divergências com o senador Jorge Seif, que integra o mesmo campo e ainda tem anos de mandato pela frente, tende a fragilizar pontes que serão necessárias adiante. Política não é apenas afirmação de convicções, é também construção de convergência, coordenação e senso de oportunidade. Quando a crítica pública passa a assumir um tom de contraste moral ou de diferenciação qualitativa dentro do próprio campo, o risco é deslocar o foco do debate para o protagonismo individual.
Isso não diminui suas qualidades, que são evidentes, nem sua legitimidade em se posicionar. Mas exige maturidade estratégica. Ser ouvida não depende apenas de intensidade, depende de articulação, de timing e da capacidade de agregar.
Há ainda um elemento maior que não pode ser ignorado. A principal liderança da direita brasileira hoje, de forma incontestável, é Jair Messias Bolsonaro. No momento em que ele aponta Flávio Bolsonaro como projeto nacional e Carlos Bolsonaro para o Senado em Santa Catarina, isso estabelece uma diretriz política que, no mínimo, merece respeito. Há aspectos disso que dispensam explicação e outros que já vêm sendo ditos com clareza.
Se não por fidelidade política e ideológica, ao menos por pragmatismo, faz sentido compreender o peso dessa construção. Santa Catarina pode vir a ter como senador um irmão do futuro presidente da República, o que, do ponto de vista político, institucional e estratégico, é algo que tende a gerar influência, acesso e protagonismo para o estado.
Digo isso também por experiência pessoal. Mesmo sem mandato, como alguém que atua no campo das ideias, muitas vezes também gostaria de ser mais ouvido. Nem por isso faz sentido recorrer ao ataque constante como forma de afirmação. Espaço se constrói.
Se cabe um conselho, é que se preserve aquilo que será necessário amanhã. Porque, como dizem os pernambucanos, quem quer ajuntar não diz “xô”.
