Portonave — do primeiro guindaste em Navegantes ao terminal que redefiniu a logística de SC
Uma reportagem da série “Gigantes de SC”

Em outubro de 2007, na foz do rio Itajaí-Açu, em Navegantes, Santa Catarina viu nascer um novo modelo de porto: a Portonave iniciou as operações como o primeiro terminal portuário privado de contêineres do Brasil. A cena que marcou aquela virada — os primeiros portêineres trabalhando e o cais começando a ganhar ritmo — não foi só um feito de engenharia: foi um sinal de que o estado estava pronto para disputar eficiência, previsibilidade e escala no comércio exterior com padrão mundial.
Desde o começo, a Portonave carregou uma decisão estratégica: operar com método. Hoje, ela integra o grupo suíço Terminal Investment Limited (TiL), que atua em dezenas de terminais no mundo, e isso se traduz em rotina e disciplina — planejamento, produtividade, segurança e transparência. Na prática, esse padrão aparece na estrutura: três berços de atracação, 900 metros de cais, 10 gates com balanças e uma capacidade anual indicada de 1,5 milhão de TEUs, com 2 milhões previstos em 2026. É o tipo de base que não aparece para quem só vê o contêiner, mas que decide se uma carga sai no prazo — ou vira custo.
E há um diferencial que diz muito sobre o perfil do terminal: a Iceport, câmara frigorífica totalmente automatizada dentro do complexo, com 16 mil posições de pallets — solução que encurta o caminho de cargas refrigeradas e dá controle de temperatura com padrão industrial. Num estado exportador de proteína, essa infraestrutura não é detalhe: é competitividade aplicada, dia após dia.
Como toda história grande, houve ciclos — e o momento atual é de investimento pesado para o futuro. Em janeiro de 2024, a Portonave iniciou a obra de adequação do cais, um pacote anunciado de R$ 1,5 bilhão, pensado para receber navios de até 400 metros e operar com 17 metros de profundidade no rio, além da instalação de guindastes mais modernos e de maior capacidade. Em paralelo, a empresa divulgou investimentos adicionais em equipamentos (incluindo scanners e guindastes elétricos), reforçando a aposta em eficiência e modernização.
Mesmo em obra — com impacto operacional inevitável — os números recentes mostram o peso do terminal no estado. Em 2024, a Portonave liderou a movimentação de contêineres em Santa Catarina, com 1,208 milhão de TEUs, num ano em que parte do cais esteve comprometida pelas intervenções. Esse é o tipo de dado que ajuda a entender por que o complexo Itajaí–Navegantes segue sendo uma artéria logística do Sul do país.
Mas, se os volumes explicam a dimensão, as pessoas explicam o sentido. A Portonave informa gerar cerca de 1,3 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos — gente que opera, confere, planeja, inspeciona, dirige, mantém e resolve. É um trabalho que raramente vira manchete, mas que sustenta o cotidiano de exportadores, importadores e transportadores. Reconhecer essa trajetória é reconhecer uma obra coletiva: o porto como indústria de rotina, onde excelência é repetição — e repetição é confiança.
Há também um marco de governança que consolidou a fase global do terminal. Em 2017, a TiL comprou a participação que estava com a Triunfo e passou a ter o controle total da Portonave, numa transação noticiada à época em R$ 1,3 bilhão. Foi um movimento que simboliza maturidade: quando um ativo logístico catarinense vira peça definitiva em uma rede internacional de terminais.
Linha do tempo — marcos essenciais
• out/2007 — Início das operações em Navegantes como primeiro terminal privado de contêineres do Brasil.
• jan/2009 — Inauguração da Iceport, reforçando a vocação para cargas refrigeradas junto ao terminal.
• 2017 — TiL compra a fatia da Triunfo e assume o controle total do terminal (negócio noticiado em R$ 1,3 bi).
• jan/2024 — Início da adequação do cais (investimento anunciado de R$ 1,5 bi) para receber navios de até 400 m e operar com 17 m de profundidade.
• 2024 — Movimentação de 1,208 milhão de TEUs em SC, com o terminal em obras.
• 2026 (previsto) — Capacidade anual indicada de 2 milhões de TEUs após o ciclo de modernização.
No fim, o que este capítulo registra é um reconhecimento: a Portonave ajudou a mudar o padrão do jogo logístico em Santa Catarina — não por discurso, mas por execução. De um cais inaugurado em 2007 ao ciclo atual de modernização, é a história de um terminal que aprendeu a crescer sem perder a obsessão pelo básico bem-feito: segurança, produtividade, previsibilidade. É assim que um porto deixa de ser só infraestrutura e vira desenvolvimento regional — contêiner por contêiner, dia após dia.
