Quando o Parlamento troca grandeza por espetáculo, o Brasil perde junto

O Congresso Nacional vem se afastando da imagem de instituição de debate elevado e compromisso coletivo, substituindo parte da política séria por encenação, confronto permanente e conteúdo de rede social.

Imagem gerada por IA

O Congresso Nacional perdeu, aos olhos de muitos eleitores, parte importante do seu pragmatismo e da sua autoridade. E perdeu justamente por aquilo que entrega. Quem acompanha sessões plenárias e reuniões de comissões vê, com frequência cada vez maior, um ambiente que se parece menos com uma casa de formulação legislativa e mais com um espetáculo de confronto permanente. Gritaria, insultos, interrupções, provocações e, por vezes, até empurrões ou ameaças de agressão ocupam um espaço que deveria ser reservado ao debate sério dos grandes problemas nacionais.

O mais preocupante é que isso deixou de ser desvio ocasional para se tornar método. Muitos parlamentares já não parecem falar para convencer seus pares ou esclarecer a sociedade. Falam para o recorte de vídeo, para a postagem posterior, para o clique fácil, para a militância digital. A tribuna, que antes era instrumento de construção política, em muitos casos virou cenário de performance. O objetivo deixa de ser o conteúdo e passa a ser a repercussão.

Essa lógica empobrece o Parlamento e rebaixa a política. Porque o mandato não foi criado para produzir cenas virais, mas para representar a população, fiscalizar o Executivo, aperfeiçoar leis e enfrentar temas que afetam a vida real do país. Quando o mandato se converte em palco de histeria, o interesse coletivo perde espaço para a vaidade individual. E o eleitor, que já convive com problemas graves em segurança, saúde, educação, infraestrutura e economia, passa a olhar para Brasília com uma mistura de cansaço, descrença e indignação.

O contraste com o passado é inevitável. Independentemente de divergências ideológicas, houve um tempo em que a tribuna era ocupada por homens públicos que sabiam sustentar posição, ouvir o contraditório e respeitar o ambiente institucional. Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Franco Montoro, San Tiago Dantas, Afonso Arinos, Pedro Simon e tantos outros pertenciam a correntes diferentes, mas tinham algo em comum: compreendiam a dimensão do cargo que exerciam. Falavam com densidade, responsabilidade e senso de país.

Não se trata de romantizar o passado ou fingir que antes não existiam conflitos. Sempre existiram. A diferença é que havia mais substância e menos encenação. Havia mais civilidade e menos teatro. Havia mais compromisso em convencer e menos obsessão em lacrar. O Parlamento era entendido como espaço de confronto de ideias, não de descontrole verbal travestido de coragem.

Hoje, infelizmente, em muitos momentos o que se vê é o oposto. O contraditório foi sendo substituído pelo ataque pessoal. A firmeza foi confundida com grosseria. A defesa de convicções foi trocada pelo deboche. E a liturgia do cargo, que deveria impor limites mínimos de comportamento, foi sendo atropelada por uma cultura política que premia o excesso, a caricatura e a agressividade.

O resultado é devastador para a imagem institucional do Congresso. O eleitor não vê grandeza. Vê circo. Não vê estadistas. Vê personagens. Não vê formulação de soluções. Vê disputa por visibilidade. E quando a população passa a enxergar o Parlamento dessa forma, a própria democracia representativa sofre desgaste, porque perde credibilidade justamente no espaço em que deveria expressar maturidade, equilíbrio e responsabilidade.

É duro registrar isso, mas a verdade precisa ser dita: boa parte dos atuais representantes está muito aquém da postura que o cargo exige e do conteúdo que o Brasil necessita. O país não será transformado por gritos, xingamentos ou vídeos inflamados para redes sociais. O Brasil só avançará quando sua representação política voltar a tratar o mandato como dever público, e não como espetáculo permanente.

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