Queda no consignado e juros mais altos ampliam aperto sobre trabalhador

O recuo de 22,5% nas concessões do consignado privado em fevereiro, combinado com a alta da taxa média para 59,4% ao ano, mostra que o crédito continua caro demais para quem mais precisa dele.

Imagem gerada por IA

Os números divulgados pelo Banco Central confirmam um cenário preocupante para o trabalhador do setor privado. Em fevereiro, as concessões de crédito consignado para esse público caíram 22,5% na comparação com janeiro, passando de R$ 9,212 bilhões para R$ 7,146 bilhões. Ao mesmo tempo, a taxa média de juros subiu de 57,4% para 59,4% ao ano. Ou seja: o crédito encolheu e ficou ainda mais caro.

O dado é relevante porque o consignado, em tese, deveria ser uma das linhas menos arriscadas para os bancos, já que as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento. Mesmo assim, o trabalhador com carteira assinada continua enfrentando um custo financeiro extremamente elevado. Quando uma modalidade com desconto em folha opera perto de 60% ao ano, o problema deixa de ser apenas estatístico e passa a ser social.

Na prática, a queda nas concessões sugere duas leituras possíveis, e ambas são ruins. A primeira é que o trabalhador está mais cauteloso diante de juros proibitivos. A segunda é que parte das instituições financeiras também está mais seletiva, mesmo numa modalidade tradicionalmente considerada segura. O resultado, em qualquer hipótese, é o mesmo: menos acesso ao crédito justamente num momento em que muitas famílias seguem pressionadas por dívida, renda apertada e custo de vida elevado. Essa leitura é uma inferência a partir dos dados de volume e taxa divulgados pelo BC.

O governo aposta no programa Crédito do Trabalhador para alterar esse quadro. A linha foi criada para permitir ao empregado do setor privado contratar consignado pela Carteira de Trabalho Digital, com uso do FGTS como garantia, sob a promessa de juros mais baixos e possibilidade de migração de dívidas antigas mais caras para condições melhores. O próprio governo apresentou o programa com esse objetivo explícito de baratear o crédito.

O desafio é que a promessa oficial ainda esbarra na realidade dos números. Se em fevereiro o consignado privado já estava em 59,4% ao ano, fica evidente que a simples criação de uma nova plataforma não resolve automaticamente o problema. Crédito mais barato depende de competição real entre bancos, percepção menor de risco e ambiente macroeconômico mais favorável. Sem isso, o trabalhador pode até ganhar mais opções, mas não necessariamente encontrará alívio relevante no bolso. Essa conclusão decorre da diferença entre o objetivo declarado do programa e os dados recentes do BC.

No fim, o retrato de fevereiro é claro: o trabalhador brasileiro continua preso a um mercado de crédito caro, restritivo e pouco compatível com a renda média do país. E enquanto o consignado privado seguir subindo de preço mesmo sendo uma linha descontada em folha, a tese de crédito acessível para o setor privado continuará muito mais no discurso do que na vida real.

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