Rombo programado expõe a fragilidade fiscal que o governo tenta suavizar
Bloqueio de apenas R$ 1,6 bilhão no Orçamento vem acompanhado de forte piora na projeção do déficit primário de 2026 e reacende o debate sobre a real situação das contas públicas.

O anúncio feito pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento confirmou um bloqueio de apenas R$ 1,6 bilhão no Orçamento deste ano, mas o dado mais relevante veio no mesmo movimento: a projeção oficial para o déficit primário de 2026 subiu de R$ 22,9 bilhões, quando o Orçamento foi aprovado, para R$ 59,8 bilhões. Pelo relatório bimestral, esse rombo só fica formalmente compatível com a meta porque o governo considera abatimentos permitidos pela regra, entre eles despesas excluídas do cálculo, como precatórios.
A meta fiscal de 2026 continua sendo um superávit primário de 0,25% do PIB, equivalente a cerca de R$ 34,3 bilhões, com banda de tolerância de 0,25 ponto percentual para cima ou para baixo. Na prática, isso significa que a meta pode ser considerada cumprida mesmo com resultado primário próximo de zero. O próprio Anexo de Metas Fiscais da LDO de 2026 prevê essa margem e também autoriza deduções específicas no cálculo, o que ajuda a explicar como um déficit elevado pode ser enquadrado legalmente dentro da regra.
É justamente aí que está o ponto central desta discussão. Independentemente do nome técnico, da brecha legal ou da engenharia permitida pelo arcabouço, a realidade continua sendo a mesma: o governo segue operando no vermelho. Pode haver cumprimento formal da meta, mas isso não muda o fato de que as contas públicas permanecem pressionadas e dependentes de exceções para parecerem menos deterioradas do que de fato estão.
Na avaliação deste portal, esse é o tipo de arranjo que talvez resolva o problema no papel, mas não altera a substância do quadro fiscal. Um bloqueio pequeno diante de uma deterioração tão expressiva na projeção de resultado passa a mensagem de que o ajuste necessário foi empurrado para um limite mínimo politicamente administrável, e não para o patamar economicamente mais prudente.
O efeito dessa escolha não é abstrato. O Banco Central informou que a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 78,7% do PIB em janeiro de 2026, somando R$ 10,1 trilhões. Quando o setor público continua operando com déficit, a tendência é que a dívida siga pressionada, ampliando o custo de financiamento do Estado e contaminando juros, investimento e confiança.
No fim, a conta não desaparece porque foi acomodada dentro da regra. Ela apenas muda de apresentação. O país continua convivendo com desequilíbrio fiscal, crescimento da dívida e margem cada vez menor para erro. E, como quase sempre acontece, quem paga essa conta não é a planilha oficial, mas o cidadão — por meio de juros altos, menor poder de compra e um Estado cada vez mais caro.
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