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Nota publicada em 26 de março de 2026 pelo jornalista Christian Coelho, repercutida pela Rádio 93 FM, descreve um movimento político já consolidado dentro do Progressistas em Santa Catarina. Cerca de 40 dos 53 prefeitos do partido caminham na direção do projeto de reeleição do governador Jorginho Mello, enquanto o senador Esperidião Amin mantém posição dissidente e sustenta a hipótese de candidatura própria. A mesma nota resgata um episódio decisivo de 2022, quando Angela Amin deixou de compor como vice na chapa de Jorginho em razão da candidatura ao governo liderada por Esperidião Amin. O resultado foi objetivo e mensurável: 398.092 votos, equivalentes a 9,75%, e a quinta colocação. No mesmo ciclo eleitoral, Angela Amin não retornou à Câmara dos Deputados e João Amin não se reelegeu para a Assembleia Legislativa. Não se trata de interpretação retrospectiva, mas de consequência política verificável.

Faço esse registro porque participei diretamente daquele momento, como venho escrevendo a respeito e comentando com amigos.

Às vésperas das definições eleitorais de 2022, fui convidado para um almoço no Senado com Esperidião Amin e Angela Amin. Estávamos apenas nós três. Havia dúvida real quanto ao caminho a seguir e, em determinado momento, fui instado a opinar.

Minha posição foi objetiva. Angela deveria aceitar a vaga de vice na chapa de Jorginho Mello. E Esperidião Amin deveria concluir seu mandato como senador, encerrando sua trajetória política com a dignidade compatível com sua história pública.

O tempo confirmou as múltiplas consequências nefastas da oportunidade recusada pelo clã Amin.

Já no ano corrente, durante o evento Empreendedores do Brasil 2026, em Balneário Camboriú, relatei esse episódio ao prefeito João Rodrigues. Ao ouvir o relato, ele reagiu de imediato: “Foi mesmo um erro ela não aceitar.”

A resposta continha, por si só, a síntese do problema.

Porque aquela decisão não ficou no passado. Ela reaparece agora, com outros personagens, dentro da mesma estrutura lógica.

João Rodrigues teve a possibilidade concreta de compor como vice e não avançou. Jorginho Mello seguiu e estruturou sua chapa com o prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo. Trata-se do maior colégio eleitoral de Santa Catarina, com influência direta sobre toda a região Norte do estado, o que confere à escolha densidade territorial e econômica. Em paralelo, no plano nacional, consolida-se a mesma engenharia política, com a formação de uma chapa presidencial encabeçada por Flávio Bolsonaro tendo como vice um nome do Novo, com destaque para Romeu Zema, em razão do peso decisivo de Minas Gerais.

Não há improviso nisso. Há método.

E esse método, hoje, está fortemente condicionado por um elemento central: o risco.

A progressiva perda de espaço da senadora Tereza Cristina como possível vice presidencial não decorre de fragilidade pessoal, mas de cálculo político. O Progressistas, seu partido, pode ser atingido pelos desdobramentos da delação do banqueiro Daniel Vorcaro no caso Banco Master, investigação de grande escala com potencial de alcançar lideranças políticas relevantes. Esse risco não se limita ao plano nacional. Ele pode irradiar efeitos sobre estruturas estaduais que envolvem PP, União Brasil e até setores do PSD.

Esse ambiente de cautela redefine as composições.

E, em Santa Catarina, ele se combina com outro vetor estrutural: o econômico.

O estado é um dos maiores polos da indústria de proteína animal do mundo, e a JBS ocupa posição central nesse sistema. Não se trata apenas de relevância econômica, mas de um grupo cuja trajetória recente está diretamente associada aos escândalos revelados pela Operação Lava Jato, incluindo acordos bilionários decorrentes da admissão de práticas sistemáticas de financiamento político irregular. Sua relação histórica com o ciclo de poder do Partido dos Trabalhadores é amplamente documentada e integra o pano de fundo das relações entre economia, política e ambiente institucional no país.

É nesse contexto que a disputa ao Senado deve ser analisada.

Décio Lima é o candidato do PT. Em Santa Catarina, a esquerda apresenta um comportamento eleitoral conhecido: possui um piso consistente, mas enfrenta limites claros de crescimento. Sua viabilidade não decorre de expansão, mas da fragmentação do campo adversário.

E é precisamente esse o efeito produzido pela candidatura de Esperidião Amin.

Ao disputar o segundo voto dentro do mesmo espectro político, Amin introduz uma divisão que altera a matemática eleitoral e cria as condições necessárias para viabilizar a candidatura petista.

Não se trata de confundir esse movimento com a candidatura de Carlos Bolsonaro. São planos distintos. Carlos Bolsonaro mantém liderança sustentada por dois fatores objetivos: a fidelidade do eleitor bolsonarista a Jair Bolsonaro e o pragmatismo de parte do eleitorado de centro e mesmo de setores empresariais, que enxergam valor estratégico na possibilidade de Santa Catarina ter no Senado um irmão do provável futuro presidente da República. Esse fator tem, inclusive, levado apoiadores tradicionais de outras candidaturas a reavaliar suas posições.

O que se observa, portanto, é um movimento simultâneo e coerente. De um lado, resistência editorial e política à candidatura de Carlos Bolsonaro. De outro, um ambiente significativamente menos hostil à candidatura de Esperidião Amin. Essa assimetria não se explica pela viabilidade eleitoral de um ou de outro, mas pelo efeito que produzem na equação. Enquanto um concentra, o outro divide.

E é essa divisão que viabiliza o terceiro elemento.

Não por acaso, esse ambiente é acompanhado por um ecossistema de influência no qual grandes agentes econômicos, como a JBS, possuem capacidade de interferir indiretamente por meio de investimentos publicitários relevantes nos grandes veículos de comunicação, ajudando a moldar narrativas e a estabelecer zonas de conforto ou de pressão sobre determinadas candidaturas.

O quadro, portanto, não é fragmentado. É coerente.

E ele conduz a uma conclusão inevitável.

Em 2022, recusou-se uma composição que ampliaria competitividade. Em 2026, insiste-se em um movimento que produz o efeito oposto. E, ao fazê-lo, não apenas se repete um erro já testado, como se abdica de uma alternativa estratégica de alcance muito superior. Porque, para alguém com a trajetória de Esperidião Amin, havia — e ainda há — um caminho institucional capaz de reposicionar sua presença no cenário nacional: a Câmara dos Deputados, com viabilidade real de alcançar sua presidência e, por consequência, integrar a linha sucessória da Presidência da República. Em determinadas circunstâncias, isso poderia levá-lo, ainda que interinamente, ao exercício do cargo máximo da República como coroamento de uma carreira pública de décadas. O que está em jogo, portanto, não é apenas uma eleição, mas a escolha entre repetir um caminho cujos resultados já são conhecidos ou compreender, a tempo, a dimensão estratégica de uma oportunidade que, por razões politicas ou mesmo “cronológicas”, não voltará a se apresentar a Esperidião Amin.

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