A temporada mal começou e a conta já chegou: imediatismo derruba técnicos e empurra clubes para mais dívidas

Com pouco mais de 40 dias de calendário, Série A já viu as demissões de Fernando Diniz (Vasco) e Jorge Sampaoli (Atlético-MG); no país onde técnico dura, em média, cerca de seis meses, a cultura do “troca-troca” custa caro e dificulta qualquer construção sólida.

O imediatismo do futebol brasileiro tem um roteiro conhecido — e o culpado quase sempre é o mesmo: o treinador. A temporada começou há pouco mais de 40 dias, mas já foi tempo suficiente para dois técnicos de clubes da Série A perderem o emprego. Fernando Diniz foi demitido pelo Vasco após a derrota no clássico contra o Fluminense, na semifinal do Carioca. Jorge Sampaoli caiu no Atlético-MG depois de um início irregular, com apenas duas vitórias em dez jogos, e empate que virou gatilho para a decisão.

O ponto não é defender que treinador seja intocável. Ele é responsável, sim — por treinos, escolhas, modelo de jogo, gestão de grupo e resultado. Mas a engrenagem é maior: existe diretoria, existe um elenco geralmente milionário, existe uma estrutura técnica e de apoio robusta nos grandes clubes. E, mesmo assim, quando o resultado não vem, a punição costuma ser concentrada em um só CPF.

O problema é que essa cultura não é apenas esportiva. Ela é financeira.

O Brasil é um dos ambientes de maior rotatividade de treinadores, e os próprios levantamentos mostram isso. O ge, em seu painel de rotatividade, aponta que, na elite do futebol brasileiro, um treinador permanece em média cerca de seis meses no cargo. Em escala global, estudos do CIES mostram que ligas sul-americanas têm tempo médio de permanência inferior ao europeu, o que reforça o padrão de curto prazo no continente.

E o mercado aprendeu a precificar esse comportamento. Se é notório que, na primeira sequência ruim, o técnico cai, os contratos passaram a embutir multas maiores e proteções mais pesadas. O resultado é óbvio: demitir custa caro — e, para clubes que já vivem com caixa apertado, dívida acumulada e dificuldade de investimento, essa conta vira um tiro no pé. Em 2025, por exemplo, reportagens já mostravam clubes gastando milhões apenas com indenizações de comissões técnicas ao longo do Brasileirão, tornando o “troca-troca” um custo fixo do calendário.

Mas o efeito mais destrutivo é técnico: não existe construção de um time sólido e competitivo — mesmo com craques — em trabalho de curtíssimo prazo. Futebol exige repetição, ajustes, entendimento coletivo, amadurecimento de dinâmica defensiva e ofensiva, hierarquia interna, confiança. Trocar o comando a cada oscilação reinicia processos, muda referências e cria um time que vive de lampejos. Ganha um jogo, perde outro, e nunca entrega consistência.

No fim, clubes pagam duas vezes: pagam a multa da demissão e pagam o preço esportivo de não construir um projeto.

O futebol brasileiro precisa de revisão de conceito, por uma razão simples: não há sustentabilidade em tratar treinador como fusível permanente. Se a diretoria escolheu um técnico, a escolha tem que vir acompanhada de critérios, metas realistas e tempo mínimo de trabalho — e, principalmente, de coerência. Sem isso, a crise vira método e o método vira atraso.

O imediatismo não melhora o futebol. Só encarece a falha.

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