ALAMEDAS DE FLORIPA
Artigo de Ernesto São Thiago, advogado

Florianópolis gosta de falar em sustentabilidade, mas a experiência cotidiana nas ruas mostra outra realidade. No Centro e nos balneários, as calçadas expostas, o sol direto e a falta de sombra ainda são regra. Nos poucos trechos onde há sequência de árvores, a cidade muda completamente. O caminhar fica mais agradável, as pessoas permanecem mais tempo nos espaços públicos, o comércio se beneficia e o microclima se torna mais ameno. Esses lugares demonstram o potencial que a cidade tem quando a arborização é tratada com planejamento.

A retirada de figueiras antigas revelou conflitos reais entre raízes, tubulações, calçadas estreitas e fiação. O problema não está nas árvores, mas na ausência histórica de projeto urbano, na escolha inadequada de espécies e na falta de manejo ao longo do tempo. Não se trata apenas de nos adaptarmos a árvores que às vezes atrapalham, embora prestem importantes serviços ambientais. Trata-se também de planejar com responsabilidade a substituição, quando ela for realmente imprescindível, por espécies mais adequadas ao espaço urbano, como a cabreúva, e de espalhar alamedas por toda a cidade, em todos os bairros.
Florianópolis precisa de uma política clara e permanente de arborização viária – e não está sozinha nessa demanda.
Um programa municipal estruturado com o nome “Alamedas de Floripa”, por exemplo, poderia definir corredores prioritários, metas por bairro, seleção técnica de espécies e calçadas compatíveis com árvores de porte adequado.
Arborizar significa conforto térmico, melhor qualidade do ar, menor aquecimento das superfícies e estímulo real à caminhabilidade, modelo desejado de mobilidade urbana. Em muitos casos, pessoas optam pelo automóvel refrigerado, mesmo para trajetos curtos, simplesmente porque faltam ruas arborizadas que tornem o percurso suportável.
Em conversa pessoal, o arquiteto Luiz Eduardo Índio da Costa sintetizou o impacto dessas intervenções ao afirmar que alamedas podem ser até 6°C mais frescas do que ruas sem arborização, resultado combinado de sombra e evapotranspiração. A percepção técnica coincide com o que qualquer morador sente ao passar de uma rua exposta para uma rua sombreada.
A arborização urbana traz ainda um benefício adicional frequentemente ignorado. Ao oferecer alimento, abrigo e locais de nidificação, as árvores favorecem o retorno e a permanência de aves na cidade, inclusive espécies canoras. Áreas verdes e corredores arborizados são reconhecidos pela ecologia urbana como importantes para a avifauna. Assim, como um bônus civilizatório, alamedas podem estimular a presença de sabiás, canários e outras aves que dependem de vegetação para se estabelecer em áreas urbanas, enriquecendo a paisagem sonora e a biodiversidade.
Uma sugestão simbólica e pedagógica seria renomear a emblemática Avenida Trompowsky para Alameda Trompowsky, refletindo e exemplificando o que ela já é na prática e indicando o caminho que a cidade pode seguir.
Continuar reagindo caso a caso ou assumir planejamento que inclua manutenção, substituição responsável e expansão sistemática de alamedas? O futuro tende a ser mais quente e mais denso. Transformar ruas em alamedas é política pública de saúde, clima e qualidade de vida. A sombra e os cantos de pássaros que teremos dependem do que estivermos dispostos a planejar, substituir quando necessário e plantar agora. A sugestão está colocada.
