Canoinhas: terra da erva-mate, memória do Contestado e força do Planalto Norte
Série “Cidades de SC”

Canoinhas é uma cidade em que o interior catarinense se revela com clareza: tradição, trabalho, história marcada por conflitos e uma identidade construída entre rios, matas e a cultura da erva-mate. Localizada no Planalto Norte de Santa Catarina, próxima à divisa com o Paraná, o município se tornou referência regional por sua força econômica ligada ao agronegócio, ao extrativismo e ao comércio, mas também por carregar um dos capítulos mais simbólicos da história social do estado: a Guerra do Contestado.
O surgimento de Canoinhas está ligado às rotas antigas que cortavam a região, utilizadas por tropeiros e viajantes que transitavam entre o Sul e o Sudeste do Brasil. O próprio nome remete às canoas pequenas usadas para atravessar rios e áreas alagadas, numa época em que a paisagem era dominada por mata fechada, pinheirais e caminhos rústicos. Com o avanço da colonização e o desenvolvimento da exploração da madeira e da erva-mate, a cidade passou a crescer como núcleo comercial e ponto estratégico do Planalto Norte.
A história canoinhense se confunde com a história de uma região marcada pela disputa de terras e pela desigualdade social. No início do século XX, o Planalto Norte foi cenário da Guerra do Contestado, conflito que envolveu sertanejos, forças militares e interesses econômicos ligados à expansão ferroviária e ao controle territorial. Canoinhas está entre os municípios que guardam essa memória com intensidade, tanto pela proximidade geográfica dos episódios quanto pelo impacto cultural que permaneceu na identidade local. Até hoje, o tema faz parte do imaginário regional e aparece em monumentos, pesquisas, eventos culturais e narrativas populares que atravessam gerações.

Com mais de 50 mil habitantes, Canoinhas funciona como polo de serviços e comércio para várias cidades vizinhas, mantendo vida urbana ativa e forte presença regional. A economia tem raízes no campo e na floresta: agricultura, pecuária, produção de grãos, silvicultura e, principalmente, a cadeia produtiva da erva-mate, que transformou o município em uma das referências nacionais do setor. Canoinhas é frequentemente associada ao título de “capital da erva-mate” em Santa Catarina, refletindo a importância econômica e cultural dessa produção, que envolve colheita, beneficiamento e comercialização.
Ao lado do mate, o setor madeireiro também foi historicamente decisivo para o desenvolvimento local. Durante décadas, serrarias e indústrias ligadas à madeira movimentaram a economia e ajudaram a estruturar o município. Hoje, a cidade mantém esse legado industrial e rural, mas com uma economia mais diversificada, sustentada por comércio forte, serviços, pequenas indústrias e atividades ligadas ao agronegócio.
Socialmente, Canoinhas preserva características típicas de cidade tradicional do interior: vínculos comunitários fortes, vida cultural ligada a clubes, associações e eventos públicos, além de um cotidiano em que o campo e a cidade se misturam. Muitos moradores vivem na área urbana, mas mantêm ligação direta com propriedades rurais ou com a produção agrícola familiar. Essa relação com a terra ajuda a explicar o senso de identidade regional e a valorização do trabalho como elemento cultural.
Os diferenciais de Canoinhas aparecem tanto na história quanto na cultura produtiva. Poucas cidades catarinenses têm uma ligação tão direta com a erva-mate e com o imaginário do Contestado. Esse conjunto faz de Canoinhas uma cidade com identidade clara: uma mistura de tradição cabocla, influência de imigração europeia e memória sertaneja, criando um perfil cultural único dentro do estado.
No turismo, o município não é conhecido por grandes atrações estruturadas como as cidades litorâneas, mas oferece experiências ligadas à natureza e ao interior. A região é marcada por rios, áreas verdes, matas e paisagens rurais, com espaços propícios para pesca, caminhadas e turismo de contemplação. A vida no interior, com propriedades agrícolas e produção artesanal, também se encaixa em um tipo de turismo mais simples, voltado a quem busca tranquilidade e autenticidade.
As festas e eventos ajudam a reforçar o orgulho local. Celebrações ligadas à tradição gaúcha e cabocla, feiras agropecuárias e encontros comunitários costumam movimentar o município, trazendo visitantes e fortalecendo a economia. A cultura do mate também aparece em eventos e na própria rotina: chimarrão e tereré são parte do cotidiano, funcionando quase como símbolo social de pertencimento.
Na culinária, Canoinhas entrega o sabor típico do Planalto Norte: pratos coloniais, carnes, embutidos, pães, bolachas, receitas de influência europeia e também preparos ligados à tradição rural catarinense. É uma gastronomia de interior, feita para reunir família e comunidade, com mesas fartas e comida que carrega memória.

Canoinhas é, no fim das contas, uma cidade que representa bem o espírito do Planalto Norte: resistente, produtiva e marcada por história. Entre a força econômica da erva-mate, a memória do Contestado e a vida comunitária típica do interior, o município segue como referência regional e símbolo de uma Santa Catarina menos turística, mas profundamente autêntica — onde a tradição não é cenário, e sim parte da vida real.
