Cobranças públicas e reputação em jogo: Grêmio precisa estancar a imagem de “mau pagador” antes de pensar em títulos

Dirigente do Junior Barranquilla disse que o clube não recebeu a primeira parcela por José Enamorado; Cuiabá acionou a CNRD por valores ligados à venda de Pepê. Em um mercado cada vez mais caro, o recado é simples: reforçar é necessário — mas honrar compromissos é obrigatório.

Nos últimos anos, o Grêmio passou a conviver com um tipo de exposição que nenhum clube grande deveria normalizar: cobranças públicas por dívidas em negociações de jogadores. Desta vez, a cobrança veio de fora do país. Em entrevista à Win Sports, o gerente geral do Junior Barranquilla, Héctor Fabio Báez, reclamou de atrasos e afirmou que o clube colombiano não recebeu o primeiro pagamento referente à negociação de José Enamorado.

O episódio não é isolado no noticiário. Em 2025, o Cuiabá anunciou que levaria o Grêmio à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), órgão ligado à CBF, para cobrar uma dívida relativa ao volante Pepê, mesmo após o atleta já ter sido negociado com o Vitória.

Quando cobranças assim ganham o microfone — e a Justiça desportiva — o problema deixa de ser apenas contábil. Vira reputacional.

O futebol vive de resultado, e clubes com camisa pesada são pressionados a competir por títulos. A torcida cobra contratações, a rede social amplifica qualquer oscilação e o ambiente vira uma panela de pressão. Mas há um ponto que vem antes do time em campo: credibilidade de mercado. Clube que atrasa pagamento perde força na negociação, paga mais caro no “risco Brasil” do futebol, encontra mais barreiras para parcelamentos e pode até ficar sujeito a disputas formais que travam planejamento.

E isso cria um ciclo ruim: mais dificuldade de contratar → elenco menos competitivo → resultado pior → pressão maior → decisões apressadas → contratos assumidos sem lastro. A conta chega — e chega em público.

Do ponto de vista institucional, o recado é direto: não dá para sustentar grandeza apenas com história, enquanto a imagem do clube se desgasta nas relações comerciais. O Grêmio sempre foi reconhecido por força, organização e competitividade. Preservar esse nome, hoje, passa por algo básico: cumprir o que assina.

Nesse contexto, também chama atenção o risco de o futebol gaúcho como um todo alimentar uma narrativa negativa no mercado. O Internacional já convive há anos com a percepção — justa ou injusta em cada caso específico — de dificuldades e atrasos em algumas negociações, o que vira “rótulo” rapidamente no ambiente do futebol. Se o Grêmio seguir acumulando cobranças públicas, corre o risco de entrar no mesmo balaio de desconfiança. E isso é péssimo para os dois gigantes do estado, que dependem de credibilidade para atrair atletas, parceiros, crédito e oportunidades de mercado.

Sim, o futebol ficou mais caro. Folhas salariais subiram, o custo de manutenção do elenco aumentou, a disputa por atletas se internacionalizou e o “preço de competir” se tornou agressivo. Mas a saída não pode ser empurrar a conta com a barriga. A decisão mínima — e talvez a mais importante — é a mais óbvia: não assumam compromissos que não possam pagar.

Reforçar é necessário para disputar títulos. Mas, antes de qualquer ambição esportiva, existe um dever que sustenta a instituição: honrar contratos, evitar litígios e proteger a reputação. Porque no futebol, quando o clube perde o nome, ele perde também o futuro.

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