Deus e Diabo, Parceiros

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Quando se faz a coisa certa, Deus e o Diabo não apenas cuidam da gente, mas – para conservar a ordem dos seus mundos – também tratam de nos colocar entre nossos iguais; vermelhos com vermelhos, azuis com azuis.

Thomaz Friedrich Katzenschwartzohr sempre foi homem bom, correto. Quando menino, aprontou as traquinagens de todos os moleques, mas escapou das malvadezas maiores, aquelas que podem levar ao castigo eterno. Jovem, namorou primas e vizinhas; se ultrapassou limites, foi discreto a ponto de nunca comprometer o bom nome de nenhuma delas. Casou-se, teve filhos. Foi bom marido, pai e provedor. Os filhos cresceram, estudaram, formaram-se doutores, encaminharam-se na vida.

Um dia, assim de repente, “acordou morto”. Finou-se sem susto, sem dor, sem sofrimento.

Em vida, nunca tinha buscado remissão eterna via indulgências plenárias, daquelas que dizem garantir assento numerado no paraíso. No entanto, consciente de sempre ter sido bom e honesto, encaminhou-se para o céu, para juntar-se aos ex-viventes de espírito puro.

Na entrada, foi barrado por estagiário que lhe perguntou o nome. Thomaz Friedrich Katzenschwartzohr. Atrapalhado, o anjo-aprendiz dedilhou o teclado do computador, dois dedos cata-milho embaralhando as letras do nome complicado. Para piorar, o céu ainda estava por certificar-se com o ISO 9001. O anjo, desiludido, consultou a tela do computador mais uma vez, antes de concluir:

– Senhor Thomaz, infelizmente seu nome não está na relação dos “merecedores do céu”… Lamento.

Boa praça, Thomaz – conformado – tomou o caminho do inferno. Lugar bagunçado, não tinha qualquer controle de entrada. E ele foi ficando por ali… Dias depois, o diabo-chefe procura São Pedro.

– Assim não dá – reclama. – O senhor me manda um sujeito que está virando “minha casa” num “inferno”! Isso é jogo baixo para me desmoralizar.

São Pedro não entende… “Como assim? Pode explicar melhor?”

– O sujeito simplesmente está “subvertendo a ordem e as regras”, pondo o “meu inferno” de cabeça para baixo. – E o diabo continua: – Ele fica lá o tempo todo com cara de honesto, jeito bondoso, fala mansa, olhando as pessoas nos olhos… Para piorar, já tem boa renca imitando ele! Até alguns dos meus diabos estão achando o velho simpático.

Intrigado, São Pedro vai conferir o que está acontecendo. Descobre a atrapalhação do estagiário. E – para alívio do diabo – trata de repatriar o bom homem para o reino dos céus, para junto dos seus iguais.

História contada pela Betty, minha mulher.

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