Dois pesos, duas medidas? O caso do samba-enredo sobre Lula e o espelho incômodo da grande mídia
Sem entrar no mérito jurídico, a homenagem a Lula no Carnaval reacendeu um debate antigo: critérios editoriais variam conforme o personagem? Quando a imprensa escolhe lado, a democracia perde o seu principal “fiscal” — e a própria imprensa vira alvo quando a censura avança.

Não é nossa intenção entrar em questões jurídicas, até porque não temos formação técnica para isso. Quem decide o que é legal ou ilegal é a Justiça, e ponto. A reflexão aqui é outra: o posicionamento da grande mídia diante de episódios que misturam política, espetáculo e disputa eleitoral — e como a régua parece mudar conforme o nome do protagonista.
O fato é objetivo: a escola Acadêmicos de Niterói levou para a Sapucaí um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o tema virou alvo de ações na Justiça Eleitoral por suposta propaganda antecipada. O TSE negou liminares e, pelo menos naquele momento, não impediu o desfile, registrando que as alegações seriam analisadas no tempo adequado do processo. A discussão, portanto, existe, chegou ao tribunal e é real.
O ponto é o ambiente. Imagine, com honestidade intelectual, se o mesmo roteiro — escola, enredo, festa popular, presença de autoridades, homenagens explícitas — estivesse associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro em ano eleitoral. Pelo histórico recente do noticiário político brasileiro, é difícil acreditar que o assunto ficaria restrito a notas e registros burocráticos. A sensação é que haveria cobertura ininterrupta, manchetes dominantes e um pelotão de “especialistas” antecipando vereditos em tom de sentença — antes mesmo de qualquer julgamento. E não é só impressão de bolha: veículos internacionais também registraram que a homenagem a Lula gerou acusações de pré-campanha e risco jurídico, exatamente por ocorrer em ano de eleição e com presença do próprio presidente no evento.
A imprensa tem um papel fundamental em qualquer democracia: ela deveria funcionar como guardião, fiscal permanente, contraponto ao poder — seja ele qual for. Quando a grande mídia passa a operar com filtros ideológicos visíveis, perde a capacidade de ser árbitro confiável e vira jogador. E quando a imprensa vira jogador, a consequência natural é a fragmentação: o público deixa de confiar, escolhe “a sua” versão e o país entra num ciclo de polarização informativa em que ninguém acredita em ninguém.
Os dados de confiança ajudam a entender o tamanho do problema. Pesquisas e análises sobre o consumo de notícias mostram que a confiança no jornalismo varia e oscila, com parte do público evitando noticiário e desconfiando do viés editorial — um quadro debatido em torno de relatórios internacionais como o do Reuters Institute (Oxford). Quando a credibilidade cai, não é apenas “a imagem” da imprensa que sofre: é a qualidade do debate público, porque a sociedade passa a tomar decisões sem base comum de fatos.
E aqui vem a ironia mais grave — e mais difícil de explicar, mas não impossível: quando a censura chega, os primeiros penalizados são justamente a imprensa e seus profissionais. O mesmo ambiente que normaliza controle “do bem”, filtros “do lado certo” e silenciamentos “necessários” costuma abrir a porta para algo maior: o poder aprendendo que pode apertar o cerco, restringir narrativa e selecionar o que pode circular. A história mostra que isso não para no adversário. Mais cedo ou mais tarde, chega em todos.
Por isso, o debate sobre o samba-enredo, Lula e Carnaval é maior do que o Carnaval. Ele toca no coração do que sustenta uma democracia saudável: isonomia, critérios claros, liberdade de expressão com responsabilidade — e uma imprensa que seja crítica por método, não por conveniência.
Se a regra é cobrar, cobre-se de todos. Se a regra é relativizar, relativize-se para todos. O que destrói a confiança pública não é a crítica dura nem a cobertura leve. É a seletividade. E, quando a seletividade vira padrão, a verdade vira apenas “narrativa”.
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