Entre avanços e retrocessos, a política brasileira escolheu o caminho mais pobre: menos proposta, mais destruição

A humanidade segue provando sua capacidade de inovar em ritmo impressionante, enquanto o Brasil se aproxima de mais uma eleição sob o risco de repetir um roteiro conhecido: campanhas centradas em ataque, medo e desinformação, num ambiente em que a discussão sobre qualidade de vida da população fica em segundo plano. O próprio TSE já aprovou regras específicas para IA e reforçou alertas sobre desinformação nas eleições de 2026.

O que se espera da humanidade é evolução permanente. E, sob muitos aspectos, ela aconteceu. O ser humano foi capaz de romper limites antes tratados como impossíveis, seja na medicina, na energia, na tecnologia, na exploração aeroespacial ou agora na inteligência artificial, que deixou de ser promessa e virou ferramenta cotidiana. Isso é avanço real.

Mas a moeda, como sempre, tem dois lados.

Ao mesmo tempo em que o mundo avança, ele também retrocede. As guerras seguem abertas, os conflitos se multiplicam e, no plano interno dos países, a política vem se degradando como espaço de construção coletiva. No Brasil, a sensação é cada vez mais nítida: o debate público está se afastando daquilo que realmente importa para a vida das pessoas.

O cidadão comum quer saber de renda, emprego, preço, segurança, mobilidade, saúde, educação e perspectiva de futuro. Quer saber como viver melhor, com mais dignidade e menos improviso. Mas, quando o ambiente eleitoral começa a se formar, tudo indica que o foco mais uma vez será outro: narrativa, ataque, desqualificação moral do adversário e promessas de palanque que dificilmente sairão do papel.

Os sinais já estão aí. O TSE aprovou novas resoluções para as eleições de 2026 e incluiu regras específicas sobre o uso de inteligência artificial, justamente porque o risco de manipulação, conteúdo falso e confusão informacional é tratado como ameaça concreta ao processo eleitoral. A presidente do tribunal, ministra Cármen Lúcia, também alertou publicamente para os efeitos da desinformação sobre a liberdade de escolha do eleitor.

E por que isso importa? Porque o terreno já está preparado para mais uma reprise.

A polarização nacional continua forte. Pesquisas recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico em cenários de segundo turno, com disputa apertada e rejeições elevadas, o que favorece campanhas menos baseadas em projeto e mais baseadas em rejeição ao outro. Quando o voto passa a ser movido pelo medo do adversário, a política deixa de ser disputa de futuro e vira gestão de trauma.

É nesse ambiente que prospera o pior modelo possível de campanha: um modelo em que pouco importa discutir um plano sério de país, e muito importa transformar o adversário em caricatura. Em vez de propostas consistentes, vêm os rótulos. Em vez de debate programático, vêm palavras de ordem. Em vez de formulação, vêm acusações em série — “ladrão”, “miliciano”, “rachadinha”, “golpista”, “comunista”, “fascista” — como se a política brasileira tivesse desistido de convencer e preferido apenas destruir.

Na opinião deste portal, é exatamente aí que mora o maior retrocesso.

Não é apenas a agressividade do discurso. É o rebaixamento do objetivo da política. Manter ou conquistar mandato passou a valer mais do que responder às necessidades e aos desejos reais de quem coloca esses representantes no poder. A política, que deveria ser ferramenta de melhora da vida coletiva, virou em muitos casos uma máquina de sobrevivência pessoal e partidária.

Isso ajuda a explicar por que tanta promessa nasce forte e morre rápido. Porque boa parte das campanhas não é montada para governar; é montada para vencer. E vencer, hoje, parece significar apenas desmontar o outro lado o suficiente para cruzar a linha de chegada.

O resultado é um país exausto, mal informado, emocionalmente capturado e cada vez mais distante de um debate maduro sobre produtividade, crescimento, custo de vida, reforma do Estado, segurança jurídica, qualidade do gasto público e oportunidades reais para a população.

A humanidade já mostrou que consegue criar o inimaginável. O Brasil, porém, parece caminhar para mais uma eleição em que o mais básico seguirá faltando: seriedade com o eleitor.

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