FAÇA O QUE EU DIGO MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO

Por Adriano Zanotto

O mundo jurídico assiste, entre o espanto e a incredulidade, a uma sucessão de episódios que desafiam a lógica e a liturgia da nossa mais alta Corte de Justiça. Em um movimento que soa mais como distração do que como correção de rumos, a Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) resolveu traçar recomendações éticas para a magistratura brasileira. O detalhe? A maioria dos juízes deste país já cumpre esses preceitos por puro preparo ético e profissional.

A iniciativa, embora tardia, padece de um mal de origem: a falta de espelho. Pretende-se dar lições de moral ao vizinho sem antes arrumar a própria casa. O recado implícito parece ser um cínico: “Não ajam como nós agimos”.

O cenário atual é um verdadeiro desfile de situações que agridem a moralidade pública:

  • Conflitos de Alcova: Magistrados que compartilham a vida — e o teto — com advogados que militam na própria Corte onde seus cônjuges decidem o destino da nação.
  • Contratos e Agendas: Convivemos com notícias de contratos milionários envolvendo familiares de ministros, reuniões fora da agenda oficial em resorts luxuosos e uma preocupante falta de transparência.
  • Julgadores e Amigos: Se em um passado recente vimos o fenômeno de vítimas que se tornaram acusadores e julgadores, agora assistimos a magistrados avocando processos de amigos pessoais com uma naturalidade espantosa.

Para tentar justificar o injustificável, abrem-se sessões onde se normaliza o fato de ministros possuírem empresas ou proferirem palestras patrocinadas por partes que litigam no tribunal. Tudo sob o manto de uma legalidade autoproclamada.

É ofensivo exigir que juízes eleitorais se afastem de políticos e evitem eventos — sob o rigor das corregedorias e do CNJ — enquanto a cúpula do Judiciário se permite inserções e manifestações públicas sem qualquer freio. Estão medindo a magistratura de base com uma régua que se recusam a aplicar a si mesmos.

O que vemos é a institucionalização do hipócrita adágio: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Para quem guarda a Constituição, o exemplo deveria ser a primeira regra, e não a última exceção.

Sobre o autor

Compartilhar em: