GDC Alimentos — de Niterói a Itajaí, a operação que colocou o mar em conserva na mesa do Brasil
Uma reportagem da série “Gigantes de SC”

Ainda é cedo quando Itajaí começa a se mover: caminhões chegando, turno trocando, o porto ao fundo lembrando que ali o mar não é paisagem — é cadeia produtiva. É nesse cenário que a GDC Alimentos S.A. opera uma das engrenagens mais discretas (e mais presentes) da rotina brasileira: a de transformar pescado em alimento seguro, padronizado e pronto para consumo. No papel, a companhia tem sede em Itajaí e foi constituída em 03 de dezembro de 1997, com atividade ligada à fabricação de conservas de peixes, crustáceos e moluscos.
A alma dessa história, porém, começa antes — e longe de Santa Catarina. Em 1954, o imigrante português Rubem Gomes de Costa fundou a Gomes da Costa, em Niterói (RJ), com o propósito de levar sardinhas em conserva com qualidade e acessibilidade ao consumidor brasileiro. O tempo fez o que sempre faz com marcas que resistem: exigiu evolução. Vieram novos produtos, novas tecnologias e um compromisso permanente com consistência — aquela qualidade que “se repete”, lote após lote, e que é a base da confiança.
A virada catarinense aconteceu no fim dos anos 1990, quando a operação se consolidou em Itajaí, conectando indústria e logística a um dos maiores e mais estratégicos corredores marítimos do país. A presença cresceu a ponto de a própria prefeitura registrar que a empresa tinha quatro unidades espalhadas pelo município e figurava como uma das maiores empregadoras privadas da cidade, com cerca de dois mil empregos diretos no período. Hoje, quando se fala em “complexo”, não é figura de linguagem: a estrutura envolve fábrica de alimentos, fábrica de embalagens e logística própria — todas em Itajaí.
Em 2004, a história ganhou escala global: a Gomes da Costa foi incorporada ao então Grupo Calvo (hoje Nauterra), movimento que colocou a operação brasileira dentro de uma multinacional presente em dezenas de países e fortaleceu o braço industrial e comercial no Brasil. Em 2023, o grupo passou a operar sob a marca corporativa Nauterra, reposicionando a identidade global sem abrir mão das marcas que o consumidor já conhece.
O que sustenta a promessa de prateleira, no entanto, é o que quase nunca aparece: controle de processo, repetição, gente e investimento. Em 2025, a Nauterra destacou um diferencial que explica muito do desempenho no Brasil: a estratégia verticalizada, com fábrica de alimentos e fábrica própria de embalagens em aço — inaugurada em 2005 — integradas à operação. A empresa afirma produzir mais de 2 milhões de latas por dia na unidade de alimentos e, na unidade de embalagens, destinar 95% da produção ao abastecimento interno, mantendo também atendimento a clientes externos.
Essa verticalização não é só eficiência; é controle de qualidade em escala. A própria companhia relata que a fábrica de embalagens surgiu da dificuldade de encontrar, no mercado, fornecedores que atendessem aos padrões exigidos — e que, com a internalização, ganhou velocidade, flexibilidade e reduziu a necessidade de estoques volumosos. E há um capítulo ambiental que ajuda a explicar a maturidade do projeto: a unidade de embalagens opera com certificação Lixo Zero, com 99,3% dos resíduos direcionados de forma sustentável, segundo a empresa.
Para o consumidor, essa história aparece em forma de marca e portfólio. No Brasil, a Nauterra opera com Gomes da Costa e 88, reunindo um conjunto amplo de produtos — de sardinha e atum a itens como patês, saladas, azeite e soluções para food service. Para Itajaí e para Santa Catarina, aparece como emprego, cadeia logística, indústria de alto volume e um tipo de reputação rara: a de manter padrão sob pressão diária de produção.
Se números ajudam a contar a história, são as pessoas que dão sentido a ela. A cada turno, há uma disciplina silenciosa que não vira manchete: equipes de produção e manutenção, controle de qualidade, logística, segurança do trabalho, engenharia, abastecimento. Gente que garante que o que sai da linha é seguro, rastreável e igual ao que o consumidor espera. É esse esforço cotidiano — repetido por anos — que transforma uma operação industrial em legado.
Linha do tempo — marcos essenciais
• 1954 — Fundação da Gomes da Costa em Niterói (RJ), por Rubem Gomes de Costa.
• 03/12/1997 — Constituição da GDC Alimentos S.A. (Itajaí/SC).
• 1998 (fim dos anos 1990) — Consolidação da operação em Itajaí, com expansão do parque local.
• 2004 — Gomes da Costa é incorporada ao Grupo Calvo (hoje Nauterra).
• 2005 — Inauguração da fábrica própria de embalagens em Itajaí.
• 2023 — O Grupo Calvo passa a se chamar Nauterra.
• 2025 — Destaque para operação verticalizada, com produção diária em escala e unidade de embalagens com metas ambientais avançadas.

Mais do que uma cronologia empresarial, a trajetória da GDC Alimentos é um recorte do que Santa Catarina constrói quando combina porto, indústria e método: uma operação que alimenta milhões com regularidade — e que, por isso mesmo, raramente é notada. O reconhecimento, aqui, é justamente por essa “grandeza discreta”: a de fazer o essencial funcionar, todos os dias.
