*Luto não é só quando alguém morre*

Muitas vezes, no consultório as pessoas tem uma queixa comum: uma angústia que não passa, um cansaço que o sono não cura ou uma sensação persistente de estar “fora de lugar”. Quando começamos a investigar essas sensações, descobrimos que existem muitos lutos não chorados acumulados pelo caminho.
Culturalmente, reservamos a palavra “luto” apenas para a morte física. Mas, na psicologia clínica, entendemos o luto como a resposta emocional a qualquer perda significativa. É o esforço que a nossa mente faz para se adaptar a uma nova realidade onde algo que amamos — ou que nos definia — não está mais lá.
*Os muitos rostos da perda*
O luto pode ser silencioso e não ter certidão de óbito. Ele aparece:
– No fim de um relacionamento, mesmo quando sabemos que o término era o melhor caminho;
– Na demissão de um emprego que era parte central da nossa identidade;
– Na mudança de uma cidade ou de uma casa cheia de histórias;
– No distanciamento de uma amizade que, aos poucos, deixou de fazer sentido.
– O luto de quem fomos
Existe também uma forma de luto muito profunda e pouco falada: o luto por versões de nós mesmos. Quando nos tornamos pais, vivemos o luto da liberdade anterior. Ao receber um diagnóstico de saúde, vivemos o luto do corpo “invencível”. Ao envelhecer ou sair da casa dos pais, nos despedimos de fases que não voltam mais.
*Por que dar nome importa?*
Quando não chamamos essas perdas de luto, a dor fica sem lugar. A gente se cobra para “estar bem” e tenta acelerar um processo que exige, acima de tudo, tempo e escuta.
Dar nome à perda amplia a nossa possibilidade de cuidado. Reconhecer que você está atravessando um luto não te torna frágil; te torna humano. É o primeiro passo para integrar essa experiência à sua história, em vez de apenas tentar esquecê-la ou sufocá-la.
*Um lugar para a sua dor*
Você não precisa atravessar esse deserto sem companhia. A terapia é o espaço seguro para dar voz a essas ausências e, aos poucos, reconstruir o sentido do que ficou.
Você já viveu algum luto que nunca chamou por esse nome?
