MEDIA TRAINING NÃO É PERFUMARIA
Artigo de Ernesto São Thiago, advogado

O episódio envolvendo integrantes do MBL, o Morro do Mocotó e a interrupção de uma entrevista ao vivo na Jovem Pan News virou um retrato didático de um erro recorrente na política brasileira: confundir ter razão com saber comunicar.
As pautas levantadas são legítimas. Crime organizado, tráfico de drogas, perda de controle territorial, financiamento das forças policiais e desordem urbana são problemas reais, comprovados por operações policiais e fatos recentes. Negar isso é tapar o sol com a peneira.
O problema não esteve no mérito, mas na forma.
A escolha do Morro do Mocotó como símbolo dessa discussão foi particularmente infeliz. Trata-se de uma das comunidades mais antigas e tradicionais de Florianópolis, formada por ex-escravizados e por famílias ligadas à urbanização das margens do antigo Rio da Bulha, atual Avenida Hercílio Luz. Como em tantas outras áreas da cidade, houve depois expansão irregular, inclusive sobre áreas públicas, impulsionada tanto pelo crescimento natural da comunidade quanto por fluxos migratórios.
Nada disso elimina a realidade atual. Há tráfico, facções, violência, criminosos foragidos e domínio territorial exercido pelo PGC, com todas as consequências sociais que isso impõe aos moradores. O ponto é que, do ponto de vista simbólico e comunicacional, o Morro do Mocotó não é o caso mais representativo nem o mais paradigmático desse fenômeno urbano. Florianópolis possui outras áreas, em morros, dunas, manguezais e periferias recentes, cuja própria origem está diretamente associada à expansão desordenada e à captura territorial pelo crime organizado.
Ao transformar uma comunidade histórica em emblema do problema, a crítica institucional acabou soando como ataque social. O debate saiu do campo das políticas públicas e migrou para o terreno da identidade, da estigmatização e da ofensa.
A entrevista interrompida ao vivo agravou o quadro. Ao falar sobre o que faria caso se tornasse deputado, o entrevistado ultrapassou o limite do comentário político e entrou na seara da propaganda eleitoral fora de época, obrigando o jornalista a intervir e desviando completamente o foco da discussão.
Como se não bastasse, parte relevante das reações ao episódio tem sido marcada por desonestidade intelectual. Salvo raras exceções, predominou o discurso que ignora ou relativiza o domínio das facções e as mazelas concretas que isso produz, preferindo tratar o tema como mera disputa ideológica.
Há ainda um dado incômodo que quase nunca entra no debate. Em Florianópolis existem comunidades formadas não por ocupação histórica espontânea, mas por invasões organizadas e politicamente estimuladas ao longo de décadas, com apoio de setores da esquerda, movimentos ditos sociais e figuras públicas que transitam com naturalidade entre militância, discurso humanitário e relações com o empresariado. Muitas dessas áreas, apresentadas à época como “solução social”, hoje se encontram sob controle direto ou indireto de facções criminosas, com populações inteiras submetidas à violência e ao silêncio forçado.
Esse encadeamento de responsabilidades raramente é discutido. É mais confortável atacar quem aponta o problema do que enfrentar a origem política de parte do desastre urbano.
Media training não é vaidade nem perfumaria. É instrumento básico de quem pretende atuar na vida pública. Ensina a criticar sem estigmatizar, a separar diagnóstico técnico de julgamento moral, a respeitar limites legais e a preservar a narrativa.
Na política contemporânea, forma e conteúdo são inseparáveis. Uma pauta correta, comunicada de modo errado, vira crise. E crise, quase sempre, beneficia os adversários.
Sem preparo, até quem tem razão acaba trabalhando contra si mesmo.
