*O ARRANJO DO SISTEMA*

Por Ernesto São Thiago, advogado

A pré-candidatura de Gelson Merísio ao Governo de Santa Catarina, com Décio Lima na chapa ao Senado, não nasce da rua, nem de entusiasmo popular, nem de qualquer ideia nova. Nasce do instinto de sobrevivência. É o sistema reagindo ao risco real de perder, de vez, o controle do Estado para uma direita bolsonarista que já não pede licença e que avança com renovação geracional na política e discurso de rigor na gestão pública.

Esse arranjo se ancora num arco partidário conhecido e desgastado. PT e PSB fornecem o eixo ideológico, setores do MDB oferecem capilaridade institucional e o velho centrão catarinense completa a engrenagem indecente. Não se trata de coalizão programática, mas de uma frente de autoproteção.

Merísio virou o nome disponível porque ficou sem chão eleitoral. Perdeu espaço na direita, nunca teve base na esquerda e acabou acolhido por um círculo que prefere influência a voto. Sua despudorada aproximação com o universo da JBS é sintomática. A empresa carrega um histórico pesado de delações, confissões, multas bilionárias e acordos judiciais no contexto da Lava Jato. Tudo isso tratado com naturalidade por um ambiente acostumado a resolver problemas no topo, longe do eleitor.

É nesse contexto que surge o jantar tratado por certas colunas como “encontro plural”. A cena lembra menos articulação política e mais o Baile da Ilha Fiscal: salão cheio, elites sorridentes, discursos de normalidade e celebração enquanto, fora dali, o terreno político se desloca rapidamente. A presença de Wesley Batista, vindo do exterior para prestigiar o anfitrião, não simboliza pluralidade alguma. Simboliza poder econômico marcando posição num momento de transição, cercado por políticos que perderam voto e pudor, mas ainda preservam acesso.

No campo da piscicultura, a contradição ficou explícita. O governo federal, politicamente alinhado ao mesmo campo que sustenta essa chapa e historicamente associado à JBS, classificou a tilápia como espécie exótica invasora em atos normativos ambientais, criando insegurança regulatória para produtores brasileiros. Ao mesmo tempo, por outra via administrativa, autorizou a importação de tilápia do Vietnã, operação que envolve grandes players do setor, entre eles a própria JBS. A incoerência é evidente: restringe-se a produção interna enquanto se abre espaço para o peixe estrangeiro.

Em Santa Catarina, o impacto potencial dessa combinação foi imediato. A piscicultura local, formada majoritariamente por pequenos e médios produtores, correu risco real diante da possibilidade de entrada de produto importado e do temor sanitário relacionado ao vírus TiLV. Diante disso, o governo estadual reagiu. Jorginho Mello, com atuação direta da Secretaria da Aquicultura e Pesca, sob a condução técnica de Tiago Bolan Frigo, editou norma estadual proibindo a entrada da tilápia vietnamita, medida posteriormente validada pela Justiça catarinense. O senador Jorge Seif também se posicionou publicamente em defesa da cadeia produtiva da tilápia no estado.

Apesar da gravidade do tema e do impacto econômico envolvido, a grande imprensa catarinense praticamente ignorou o assunto. Não houve investigação consistente nem cobrança proporcional. O silêncio foi quase absoluto. Quando o anunciante é grande e o tema envolve interesses poderosos, a crítica é substituída por afagos e, claro, cooptada por farta publicidade.

O jantar, então, cumpre sua função simbólica. Não é articulação de futuro. É encenação de estabilidade. Como no Baile da Ilha Fiscal, dança-se enquanto o ciclo político se encerra. Celebra-se “pluralidade” onde há convergência de interesses. Aplaude-se normalidade quando o sistema já opera em modo defensivo.

Décio Lima fecha o desenho pelo outro flanco partidário. À frente do Sebrae Nacional, comanda uma estrutura que distribui publicidade institucional, eventos, patrocínios e boa vontade midiática. O discurso é empreendedorismo. O funcionamento é intermediação permanente entre dinheiro público e interesses privados. Também aqui, a crítica praticamente desaparece na mídia tradicional do estado, substituída por afagos pagos com farta publicidade, enquanto Carlos Bolsonaro, sem nada que o desabone além de não ser catarinense, é tratado como “erro” ou “aberração” pela mesma imprensa.

Enquanto isso, do outro lado, a direita bolsonarista consolida uma ascensão geracional clara. Mais jovem, mais ideológica, mais conectada ao eleitor e com discurso de moralização da máquina pública. Um campo que incomoda justamente por não depender desse circuito partidário, empresarial e midiático.

O arranjo Merísio–Décio, sustentado por PT, PSB, setores do MDB e pelo centrão de sempre, não é alternativa. É reação. É o sistema tentando se fechar antes que seja tarde. Não aponta futuro, não empolga ninguém. Como no Baile da Ilha Fiscal, há música, taças erguidas e colunas elogiosas. Mas o fim do ciclo já está em curso. ‎

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