O Banquete dos Oportunistas: Entre Cliques, Latidos e Silêncios

Vivemos tempos de frenesi seletivo. A recente e lamentável morte de um animal em nossa Florianópolis disparou um gatilho que, infelizmente, parece ter ricocheteado para longe da razão. Enquanto os animais são vítimas diárias de maus-tratos em cada esquina deste país, o caso atual tomou proporções que beiram o absurdo, onde um crime real acaba servindo de combustível para a prática de tantos outros, desferidos contra culpados e inocentes em um tribunal sem juízes, mas com muitos carrascos digitais. O inquérito sequer esfriou, mas os “gigolôs de likes” já ditaram a sentença entre um post e outro, ignorando prazos legais e o rito fundamental das instituições.

É irônico, para não dizer ridículo, observar manifestações efusivas em frente ao Tribunal de Justiça por um processo que nem sequer lá chegou, já que o Judiciário não é balcão de desejos e depende da materialidade que o inquérito policial e o Ministério Público devem apresentar. O que se percebe, na verdade, é que muitos desses ativistas de ocasião estão a quilômetros de distância de uma preocupação genuína com a causa animal. O foco é o CPF dos envolvidos: se há poder aquisitivo cria-se o cenário perfeito para insinuar impunidade e converter indignação em engajamento. Nessa dança das cadeiras virtual, o que menos importa é a alma do pobre animal; todos querem, de alguma forma, lucrar sobre a desgraça alheia.

O olhar sério sobre o tema deu lugar a uma histeria que chega a ser patológica. Estimulam-se linchamentos e agressões com um vigor que raramente vemos em casos de estupro ou assassinatos de mulheres. A mesma mão que digita ódio contra o agressor de um cão muitas vezes se omite diante da corrupção que mata em hospitais por falta de recursos, ou frente às milhares de crianças que permanecem fora das salas de aula. Falta cérebro para perceber o abismo de problemas que exige nossa atenção diária, do desemprego à infraestrutura precária. No fim das contas a solução não virá dos gritos oportunistas, mas da racionalidade. É preciso deixar as instituições trabalharem e, com orelhas atentas e bocas devidamente fechadas, buscar o equilíbrio que a civilidade exige

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