O “clã” de hoje

Quando a política quer derrubar um adversário, o atalho é velho: transformar sobrenome em escândalo. O problema real quase nunca é a família — é o que ela entrega (ou não) ao eleitor.

Volta e meia, dependendo de quem está atacando e de quem está sendo atacado, ressurge a pauta sobre a existência de um “clã” na política brasileira. A palavra entra em cena como se fosse uma denúncia automática, como se bastasse apontar um sobrenome para o público concluir o resto. Só que, na maioria das vezes, o uso do termo tem menos a ver com convicção e mais com estratégia: é narrativa para minar a força do oponente, reduzir sua legitimidade e criar desgaste com uma etiqueta fácil de colar.

O problema dessa discussão é que ela costuma ser seletiva. “Clã” vira acusação quando interessa — e vira silêncio quando é conveniente. E isso fica evidente porque o Brasil, desde sempre, conviveu e convive com inúmeros grupos familiares ou políticos regionais, espalhados por todos os cantos do país. Não é exceção: é regra histórica, alimentada por cultura política local, força partidária, capital eleitoral, redes de apoio e, principalmente, pelo voto.

Basta olhar o mapa para encontrar exemplos em vários estados: Cunha Lima (PB), Sarney (MA), Gomes (CE), Ferraz e Campos (PE), Lemos (RN), Calheiros (AL), Souza e Melo/Lins (AM), Barbalho e Bastos (PA), Moura (RO), Santos/Mendes (TO), Covas e Tatto (SP), Neves (MG), Hartung (ES), Bolsonaro, Garotinho e Paes (RJ), Genro (RS). E Santa Catarina também não foge dessa dinâmica, com nomes e famílias que atravessaram décadas do debate público, como Konder, Ramos, Bornhausen, Pavan e Amin.

Mas a pergunta que deveria vir antes do rótulo é outra: qual é, de fato, o problema? Porque não é o sobrenome em si que define se uma trajetória política é boa ou ruim. O ponto é o que se entrega ao eleitor, a qualidade do serviço público, a transparência, o respeito ao dinheiro do contribuinte, a coerência entre discurso e prática, e a capacidade de produzir resultados para a população. Há grupos que se perpetuam porque mantêm influência e estrutura, mas entregam pouco. Há outros que se sustentam porque, gostem ou não, geram percepção de presença, articulação e algum tipo de resultado — e isso vira voto.

Quando a discussão vira apenas “família x família”, o Brasil perde o foco do que realmente importa: gestão e responsabilidade. O eleitor vira torcida, a política vira ringue, e a análise vira meme. E aí entram as distorções que ajudam a manter tudo como está: o debate fica raso, a cobrança fica fraca e a decisão na urna vira emoção do momento.

No fim, a régua é simples — e é democrática. A Constituição não deixa dúvida: “todo poder emana do povo”. Isso significa que o eleitor não é figurante; é protagonista. Se queremos menos repetição, menos “status quo”, menos narrativas prontas e mais transformação real, o caminho não é caçar rótulos — é votar com profundidade, cobrar com firmeza e avaliar por entregas, não por slogans. Porque “clã” nenhum sobreviveria sem aquilo que sustenta qualquer poder em democracia: o voto.

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