O tapete vermelho e aquilo que insistimos em não ver

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O Brasil sempre teve uma relação curiosa com tapetes vermelhos. Gostamos deles, sobretudo quando ajudam a esconder a sujeira que preferimos não varrer. Nos últimos dias, celebramos com entusiasmo a premiação de um filme que revisita os chamados “anos de chumbo”, período sombrio em que liberdades foram suprimidas sob o discurso do combate ao comunismo. A lembrança é legítima. Necessária, até. A história precisa ser contada para que não se repita.

O problema começa quando essa disposição para olhar o passado não se repete diante do presente. Em pleno 2026, enquanto nos comovemos com censuras que ficaram para trás, convivemos quase com naturalidade com processos sigilosos, restrições a garantias constitucionais e decisões que fariam corar qualquer manual básico de Estado de Direito. A indignação parece ter prazo de validade — e ele já venceu.

Um prêmio que nunca sai de cartaz

Se filmes sobre autoritarismo rendem estatuetas, os escândalos de corrupção no Brasil já dariam uma longa franquia, daquelas intermináveis. Ainda assim, curiosamente, não despertam o mesmo fervor crítico. Onde ficou o debate sério sobre o Mensalão e os milhões desviados? Ou sobre a Lava Jato e o impacto bilionário que escancarou a engrenagem de um sistema que insiste em sobreviver, mesmo depois de exposto?

O roteiro da vida real é repetitivo e cansativo. Bilhões retornam aos cofres públicos, apenas para que o mesmo sistema se reorganize, mude de nome e volte a operar. Personagens afastados retornam à cena com a naturalidade de quem nunca saiu. E, no meio disso tudo, permanece o figurante de sempre: o cidadão, que paga caro pelo ingresso por meio de impostos, mas assiste a hospitais sem médicos, escolas abandonadas e serviços públicos em estado crônico de precariedade.

A tragédia fora das telas

A sátira perde a graça quando se entende que corrupção não é um crime abstrato, nem muito menos sem vítimas. Cada valor desviado representa leitos que não existem, medicamentos que não chegam e oportunidades que nunca se concretizam. É aí que a discussão deixa de ser ideológica e passa a ser moral.

Enquanto o país se paralisa em disputas narrativas e rótulos fáceis, os verdadeiros “agentes secretos” da corrupção seguem atuando longe dos holofotes, protegidos por estruturas que parecem feitas sob medida para apagar rastros e diluir responsabilidades. Criticar vilões do passado, hoje, é confortável. Difícil é encarar aqueles que continuam dirigindo, agora, esse filme repetido e cruel, em que o desemprego e o analfabetismo insistem em ser os únicos protagonistas do desfecho.

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