*O trabalho do luto não é esquecer. É reconstruir.*

Quando pensamos em luto, é comum que a primeira ideia que venha à mente seja a de esquecimento. Como se atravessar uma perda significasse, em algum momento, deixar para trás, apagar, superar.

Mas o luto não funciona assim.

*O que realmente falta quando alguém se vai*

Quando alguém se vai, não é apenas a pessoa que falta. O que dói, muitas vezes, é a ausência de uma versão de nós mesmos que só existia naquele encontro.

Existem jeitos de ser, de rir, de sentir o mundo que emergem na relação com o outro. Não porque o outro nos cria do zero, mas porque desperta algo que já existia em nós.

A presença do outro funciona como um espelho, um campo de ativação. Ele revela partes nossas que talvez não aparecessem em nenhum outro vínculo.

Por isso, a perda não é simples ausência. Ela é também desorganização.

*O apego não é só ao outro*

Costuma-se dizer que o apego é à pessoa que se foi, mas isso é apenas parte da história.

O apego também é ao olhar que você tinha sobre si mesmo quando estava com ela, ao lugar que ocupava naquela relação, à identidade que se organizava naquele vínculo.

Quando esse outro deixa de existir na sua vida, algo interno fica sem referência e isso pode gerar confusão, insegurança, sensação de vazio ou de perda de sentido.

Essa experiência não indica dependência emocional.

Indica algo muito mais humano: somos seres relacionais, nos construímos, em grande parte, no encontro com o outro.

*Luto não é apagamento. É construção de significado*

Um dos equívocos mais comuns sobre o luto é imaginar que seguir em frente significa apagar o que foi vivido. Como se lembrar fosse um problema, como se sentir saudade fosse um sinal de que algo deu errado.

Mas o luto saudável não apaga, transforma.

O que muda não é a existência da relação, mas o lugar que ela ocupa na sua história. O luto é um processo de construção de significado: integrar a perda à linha da vida, sem negar o que foi vivido.

Não se trata de esquecer quem foi importante, mas sim de aprender a viver carregando essa história de outra forma.

*Existe um você antes e um você depois*

Toda perda significativa cria uma marca, ela divide a vida em um antes e um depois. Ambos fazem parte da sua história e nenhum precisa ser negado ou apagado.

O sofrimento muitas vezes surge quando tentamos voltar a ser quem éramos antes, ignorando que algo nos atravessou e nos transformou. O luto pede reconhecimento da mudança, não resistência a ela.

*O papel da terapia nesse processo*

A terapia pode ser um espaço fundamental nesse caminho. Não para apressar o luto, nem para silenciar a dor, mas para oferecer um lugar onde a perda possa ser nomeada, elaborada e integrada.

Um espaço onde não é preciso escolher entre sofrer ou seguir vivendo. Onde é possível fazer os dois.

Reconstruir sentido não significa abandonar a vida.

Significa aprender a habitá-la de um jeito novo, levando consigo aquilo que marcou quem você é.

E talvez uma das perguntas mais importantes desse processo seja:

O que dessa relação ainda vive em você?

Essa resposta não precisa vir agora, mas merece espaço, escuta e cuidado.

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