Ouro na neve aquece o verão brasileiro

O Brasil viveu neste sábado (14) uma emoção inimaginável, com a extraordinária conquista de uma inédita medalha olímpica na neve. O feito foi um momento histórico por tudo que a sua trajetória engloba. Descrita pelo colega jornalista Vicente Datolli, membro do Comitê Executivo da Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) e publicado nas redes sociais daquela entidade que reúne jornalistas de todo o mundo e da qual faço parte, a memorável façanha orgulha a todos os brasileiros.
Escreveu Vicente Datolli:
“É verão no Hemisfério Sul. No Brasil, algumas cidades ultrapassam os 40 graus Celsius, com um índice de calor ainda maior. É o caso, por exemplo, do meu Rio de Janeiro. E também é Carnaval. Corpos suados, roupas mínimas, muita animação. De manhã cedo, muitas pessoas ainda voltam para casa depois de passar a noite festejando. Neste sábado, esses foliões descobriram que um brasileiro poderia ganhar uma medalha olímpica… Na neve!
Lucas Pinheiro Braathen conquistou a primeira medalha de ouro para a América Latina em uma Olimpíada de Inverno. Seu pai é norueguês; sua mãe, brasileira. Ele competiu pelo Brasil (carregou a bandeira do país na cerimônia de abertura) e fez história. Venceu o slalom gigante por um país onde não neva e casacos pesados de inverno só são usados em viagens à Europa. Histórico! Épico! Não havia adjetivos suficientes para descrever a conquista.
Inesperado e impossível
No ano passado, também durante o Carnaval, um filme brasileiro ganhou o Oscar de melhor filme internacional. Durante o desfile das escolas de samba, que atrai mais de 100 mil pessoas para o maior espetáculo a céu aberto do planeta e é transmitido para 140 países, o anúncio foi feito com o tom patriótico que a ocasião exigia. Era um prêmio esperado, mas parecia improvável – a medalha de ouro de Lucas era, até este sábado, inesperada e impossível.
Inesperada talvez seja um exagero, considerando seus resultados nas etapas da Copa do mundo desta temporada. Impossível é uma palavra que o esporte desconhece. Felizmente.
E é por isso que todos os dias surgem novos heróis improváveis. Homens e mulheres que desafiam o “você não pode”, substituindo-o por “você conseguiu”. E em um país onde a miscigenação e a imigração fazem parte do seu DNA, nada é mais natural do que essa mistura Noruega/Brasil.
Comemoração do samba
Em um português carregado de emoção, logo após a vitória, Lucas disse que se sentia feliz por representar 220 milhões de pessoas. Ele dançou um pouco de samba durante a festa (nada mais carnavalesco) e provavelmente comemorará com pão de queijo e brigadeiro. Não haverá tempo para fazerem máscaras com seu rosto simpático para este carnaval, mas seu nome na história já está garantido.
Se existem piscinas de ondas para simular competições de surfe, não seria exagero imaginar pistas de esqui surgindo onde não há neve… De verdade. Talvez seja um sonho mais forte do que ganhar uma medalha de ouro olímpica que “inspire novas gerações”, como disse Lucas. É um esporte caro. O Brasil é pobre, mas felizmente algumas pessoas insistem em desafiar tudo isso e transformar o impossível em momentos felizes, em história.
Mais espaço
Como não há tradição em esportes de inverno no Brasil, até mesmo a presença da imprensa é restrita. O Comitê Olímpico Internacional concede poucas credenciais ao país. Como um canal esportivo fechado transmitiu as Olimpíadas ao vivo, pudemos acompanhar a conquista em tempo real. Os jornais correram para atualizar suas informações e produzir material para celebrar a medalha em suas edições. O ouro mereceu esse esforço – e queremos mais espaço daqui para frente.
Um herói nacional
Em sua próxima visita ao Brasil, de preferência após mais uma conquista nesta segunda-feira, Lucas Pinheiro Braathen será reconhecido nas ruas, dará autógrafos e será alvo de inúmeras selfies. Ele se tornou um herói nacional. Um herói que ainda chora ao ouvir o hino nacional, lutando para cantá-lo por causa de seu português precário. Ele transmite, no entanto, muita emoção. E isso é definitivamente o que importa no esporte.
