**Quando alguém vai embora, um pedaço de mim também vai**

Nem toda dor de uma perda se parece com saudade, às vezes, o que aparece é algo mais difícil de nomear:

uma sensação de desorientação, de não saber exatamente quem você é sem aquela relação.

Quando alguém vai embora, um pedaço de mim também vai não porque eu deixei de existir, mas porque aquela relação organizava partes importantes de quem eu era.

**Nem sempre é só sobre o outro**

Costumamos pensar que o sofrimento da perda está apenas ligado à ausência da pessoa, mas, muitas vezes, o que dói não é só quem se foi.

O que dói é o lugar que você ocupava naquela relação, a identidade que se organizava naquele vínculo.

Por isso, o apego não é apenas ao outro, é também ao modo como você se reconhecia quando estava com ele.

**O outro como espelho**

Algumas relações funcionam como espelhos, elas nos devolvem imagens de nós mesmos que ajudam a dar contorno à nossa identidade.

Quando esse vínculo se rompe, por morte, separação, afastamento ou mudança, não dói apenas a ausência.

Dói precisar se entender no mundo sem aquele espelho.

É comum que surjam perguntas silenciosas:

“Quem eu sou agora?”

“Onde eu me encaixo sem essa relação?”

“Que versão minha ficou para trás?”

Essas perguntas indicam que somos profundamente relacionais.

**Isso não é dependência emocional**

É importante dizer: sentir isso não significa dependência emocional.

Significa reconhecer que ninguém se constrói sozinho, que nossa identidade se forma, em grande parte, no encontro com o outro.

Perder um vínculo significativo pode bagunçar estruturas internas e isso é uma reação humana, não um erro psicológico.

**O lugar da terapia nesse processo**

Na terapia, esse movimento pode ser acolhido com cuidado.

Sem pressa para “se reconstruir”.

Sem cobrança para “seguir em frente” rapidamente.

Sem a necessidade de fingir que nada mudou.

Antes de saber quem você será, talvez seja preciso compreender quem você deixou de ser.

Dar nome a essas perdas internas ajuda a reduzir a confusão e a criar espaço para que novas formas de existir possam surgir, no seu tempo.

**Uma pergunta para acompanhar você**

Nem toda perda se manifesta em lágrimas constantes.

Algumas aparecem como silêncio, estranhamento e sensação de vazio.

Por isso, vale deixar essa pergunta ecoar, sem pressa de resposta:

**Quem você sente que deixou de ser depois de uma perda?**

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