Não dá para fugir do assunto, pois ele é um dos poucos que – guardadas as devidas proporções – está rondando e atacando clubes do futebol catarinense, tanto quanto no cenário nacional. Me refiro a tal SAF – Sociedade Anônima do Futebol – que não hesita em acabar com a cultura do futebol, para atender aos interesses, nem sempre da entidade social, mas quase sempre de quem faz do futebol uma fonte de renda ou um elevador para alcançar seus interesses pessoais e econômicos.

Tem um clube em crise? Anuncia uma SAF como a salvação, procedimento imediatista que tem transformado o novo sistema administrativo, no vilão do futebol. Tudo fruto do caminho que os desesperados estão usando: apresentando soluções fáceis para problemas complexos.

A realidade

Uma entidade social, sem fins lucrativos virar SAF não é o problema. A crise a ser enfrentada pela SAF não foi (ainda) criada por ela. O novo e salvador modelo, da forma como está sendo aplicado, sai de uma crise e pode estar entrando em outra, muito pior.

O perigo está na ilusão que se cria nessa transformação jurídica de um clube. Os problemas não desaparecem da noite para o dia, eles apenas mudam de endereço jurídico e passam a exigir na SA, o que não se tinha na associação: competência administrativa para buscar os recursos ou para gerir a forma de eliminar as dívidas.

O que se passa na administração de uma associação, não é diferente do que ocorre dentro do campo. Até nos resultados os dois lados são absolutamente iguais. Não tem mágica, não tem milagre, para gerenciar o clube, ou para o time ganhar uma partida. Nos dois sistemas há uma necessidade coletiva de gerenciamento, de aproveitamento, de preparação e de acertos. E quando aparecem os erros, qualquer dos lados, ou ambos, sofrem as consequências.

Logo, é preciso lembrar que se não houver uma gestão profissional qualificada, uma governança com responsabilidade, a estrutura – seja ela qual for – fracassa.

Inversão dos valores

Mesmo que se deva estabelecer as indiscutíveis diferenças, os clubes mais competitivos do futebol operam com um sistema administrativo que copia uma empresa. A tão citada e pouco usada “compliance” que exige responsabilidade dos administradores, normalmente é jogada na lixeira mais próxima da mesa de quem assume o poder.

O resumo da ópera diz que nossa lógica está invertida. No Brasil, muitas vezes debatemos o modelo jurídico antes mesmo de saber quem vai gerir e quais regras serão usadas para o compromisso institucional.

Transformar uma associação em SAF não pode representar uma fuga do passado. Ela tem que ser uma escolha do futuro.

Aliás, neste item, é preciso lembrar que uma SAF deve ter compromissos para com a proteção do patrimônio material e imaterial do clube, sua marca, sua história, sua identidade e o indispensável vínculo com sua torcida.

Quem abdicar dessas normas para aplicar o velho sistema do improviso brasileiro estará cometendo uma agressão à história da associação.

Criar uma SAF como rótulo e usar as práticas antigas não vai eliminar, apenas aumentar os problemas.

Em SC

Quem gosta do assunto deve se aprofundar na avaliação dos sistemas já aplicados. No futebol catarinense temos registradas nove SAFs: Atlético Hermann Aichinger (Ibirama/inativo), Blumenau, Hercílio Luz, Inter de Lages, Tubarão, Brusque, Figueirense, Camboriú e Concórdia.

Já o Barra (Balneário Camboriú), Guarani (Palhoça) Jaraguá (Jaraguá do Sul) e Imbituba (Imbituba) operam no sistema de Companhia Limitada (LTDA).

No Brasil

Em nível nacional já passamos de 100. O Red Bull Bragantino é pioneiro como clube-empresa, antes mesmo da criação das SAFs. Os principais em competições nacionais são: Atlético (MG), Bahia, Botafogo, Cruzeiro, Fortaleza, Vasco da Gama, Fluminense, Athletico PR, Coritiba, América (MG), Atlético (GO), Cuiabá, Novo Horizontino, Ferroviária (SP), Athletic Club (MG), Amazonas, Botafogo (SP) e Botafogo (PB).

Com a recente Reforma Tributária que penalizou os clubes associativos com cargas superiores, tornando as SAFs mais vantajosas, quem ainda não mudou está de olho nelas.

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