A ONU ainda serve para alguma coisa? O mundo em guerra e a paz cada vez mais distante

Com conflitos se multiplicando, vetos travando decisões e potências agindo por conta própria, cresce a sensação de que a organização criada para evitar novas guerras perdeu força — e talvez a utilidade.

Imagem gerada por IA

A Organização das Nações Unidas nasceu de uma promessa: impedir que o planeta voltasse a mergulhar nas tragédias globais que marcaram o século 20. A ONU foi criada para ser o último grande fórum da humanidade quando o assunto fosse guerra e paz. Mas, em 2026, olhando o mapa do mundo, a pergunta é inevitável: a ONU ainda tem relevância real para cumprir aquilo que foi criada para fazer?

Os sinais de esgotamento estão por toda parte. Conflitos no Oriente Médio se repetem em ciclos cada vez mais violentos. A guerra da Rússia contra a Ucrânia segue como o maior confronto em solo europeu desde a Segunda Guerra. A China amplia a pressão militar e diplomática sobre Taiwan, mantendo o planeta em estado permanente de alerta. A tensão entre Coreia do Norte e Coreia do Sul nunca foi realmente encerrada. E, para completar o quadro, os Estados Unidos passaram a agir de forma direta em território venezuelano em operações que mudaram a dinâmica geopolítica do continente. Em comum, todos esses episódios têm algo que incomoda: acontecem com a ONU assistindo de camarote.

A verdade é que a ONU não é um “governo mundial”. Ela só consegue agir quando os países — principalmente as potências — permitem. E esse é justamente o nó que paralisa a organização: o Conselho de Segurança, órgão com poder real de decisão, está travado pela lógica do veto. Cinco países têm poder de bloquear qualquer medida: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Na prática, isso significa que, sempre que um conflito envolver interesses diretos de uma dessas potências ou de seus aliados, a ONU vira um palco de discursos — e nada mais.

É por isso que o mundo assiste, repetidas vezes, a um ritual quase previsível: reunião de emergência, notas oficiais, condenações genéricas, apelos por paz… e nenhuma ação concreta. Para o cidadão comum, a ONU se tornou um símbolo de burocracia internacional: uma entidade que fala muito, custa caro, mas não muda o curso dos acontecimentos mais dramáticos.

Não é que a ONU seja irrelevante em tudo. Ela tem um papel importante em áreas humanitárias, programas de alimentação, refugiados, infância, saúde pública e ajuda internacional. Mas quando o tema é o “núcleo duro” da sua missão — evitar guerras, impor limites a regimes agressivos e proteger civis — a organização parece presa ao seu próprio modelo de funcionamento, que ficou ultrapassado diante da realidade do século 21.

E esse talvez seja o ponto central. O mundo mudou. A ONU não acompanhou. O desenho institucional criado em 1945 favorece o equilíbrio das grandes potências vencedoras da guerra, não a justiça global. O resultado é uma organização que funciona melhor para administrar crises do que para evitá-las. E que, frequentemente, serve mais para legitimar narrativas diplomáticas do que para interromper tragédias.

O planeta está entrando em uma era perigosa: multipolar, instável, com disputas por poder, energia, tecnologia e influência regional. Nesse cenário, manter uma entidade sem força coercitiva real pode ser o mesmo que manter uma ilusão: a de que existe um árbitro, quando, na prática, os jogadores seguem fazendo o que querem.

Se a ONU quer voltar a ser relevante, precisará enfrentar a reforma que todos evitam: rever o Conselho de Segurança, o poder de veto, a representatividade e os mecanismos de decisão. Só que isso depende justamente de quem se beneficia do modelo atual. Ou seja: o impasse é estrutural.

Por isso, o debate que deveria estar em pauta é mais profundo. Não basta dizer que a ONU “não funciona”. A pergunta correta é: que tipo de arquitetura global pode de fato garantir a paz num mundo em que interesses nacionais se sobrepõem a qualquer consenso? Se a ONU não tem mais força, o que ocupará esse espaço? Nada? Novas alianças militares? A lei do mais forte?

O mundo não pode se dar ao luxo de continuar nesse “faz de conta” institucional, enquanto guerras e ameaças se multiplicam. A paz mundial não pode depender de discursos. Precisa de decisões. E, principalmente, de coragem política — algo que, até agora, a ONU tem mostrado ter cada vez menos.

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