A política perde quando atos legais parecem troca de favores

Liberação de R$ 12 bilhões em emendas às vésperas da sabatina de indicado ao STF reacende debate sobre transparência, oportunidade política e confiança nas instituições.

A imagem da política brasileira volta a ser colocada em xeque. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira, o governo federal empenhou cerca de R$ 12 bilhões em emendas parlamentares às vésperas da sabatina de Jorge Messias, indicado pelo presidente Lula para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. O empenho é a etapa em que o governo reserva recursos no orçamento para pagamento posterior.

Não se trata aqui de julgar o indicado, nem de afirmar ilegalidade na liberação dos recursos. A questão central é outra: o momento. Quando uma liberação bilionária de emendas ocorre justamente no período em que senadores irão avaliar um nome escolhido pelo chefe do Executivo para o STF, a imagem transmitida ao cidadão é ruim. Mesmo que tudo esteja dentro da lei, a percepção pública pode ser de troca política.

Esse tipo de coincidência alimenta a descrença da população. O eleitor comum observa a movimentação em Brasília e se pergunta se decisões relevantes para o país estão sendo tomadas com base no interesse público ou em acordos de ocasião. A dúvida, por si só, já enfraquece a confiança nas instituições.

As emendas parlamentares são instrumentos legítimos do orçamento e podem financiar obras, saúde, infraestrutura e demandas reais dos municípios. O problema surge quando sua liberação parece vinculada ao calendário político. Em um país que precisa fortalecer a transparência, a rastreabilidade e a responsabilidade no uso do dinheiro público, a forma e o momento das decisões importam tanto quanto a legalidade.

O Brasil precisa respirar institucionalmente. Precisa que Executivo, Legislativo e Judiciário atuem de forma clara, republicana e compreensível para a sociedade. Quando os Poderes passam a impressão de que tudo se resolve por negociação de bastidor, todos perdem: governo, Congresso, Supremo e, principalmente, o cidadão.

A democracia depende de confiança. E confiança não se constrói apenas com atos legais, mas também com gestos adequados, transparência e respeito à percepção da sociedade. O país precisa acreditar em suas instituições e em seus representantes. Para isso, a política precisa cuidar não apenas do que faz, mas também de como faz — e de quando faz.

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