Prezado eleitor, prepare-se: a campanha será de baixo nível

Antes mesmo do início oficial da propaganda eleitoral, o debate político já mostra excesso de ataques, pouca proposta concreta e quase nenhum projeto sério para o país.

Prezado eleitor, prepare-se. A eleição presidencial deste ano tem todos os sinais de que será de nível muito baixo. E, para ser justo, isso não começou agora. A cada ciclo eleitoral, o Brasil parece descer mais um degrau na qualidade do debate público. O que antes deveria ser disputa de ideias virou guerra de destruição. O que deveria ser apresentação de projetos virou sucessão de ataques, denúncias, frases de efeito e vídeos feitos para viralizar.

Legalmente, a campanha ainda nem começou. O calendário eleitoral de 2026 estabelece o primeiro turno para 4 de outubro e o segundo turno, se houver, para 25 de outubro. A propaganda eleitoral só é permitida a partir de 16 de agosto, segundo as regras da Justiça Eleitoral. Antes disso, os nomes se apresentam como pré-candidatos, participam de eventos, gravam vídeos, fazem discursos e testam narrativas. A lei permite menção à pré-candidatura e exaltação de qualidades pessoais, desde que não haja pedido explícito de voto. Mas, para o eleitor comum, a diferença entre “pré-campanha” e campanha virou quase uma formalidade. Quando alguém diz “temos que eleger fulano” ou “precisamos reeleger sicrano”, a mensagem política está dada. (tse.jus.br) (mpf.mp.br)

O problema maior, no entanto, não é jurídico. É político e moral. O país tem desafios imensos: dívida pública, juros altos, insegurança, educação deficiente, saúde sobrecarregada, infraestrutura atrasada, carga tributária pesada e serviços públicos que muitas vezes não correspondem ao que a população paga. Diante disso, o mínimo que se esperaria dos candidatos seria um plano sério, executável e transparente. Mas o que se vê, até aqui, é muito mais disposição para destruir o adversário do que coragem para explicar como governar.

O eleitor brasileiro está sendo empurrado para mais uma campanha emocional, raivosa e superficial. De um lado e de outro, a lógica parece ser a mesma: transformar o adversário em inimigo, reduzir o debate a manchetes e trocar propostas por acusações. Não se discute com profundidade como melhorar a escola pública, como reduzir o custo do Estado, como aumentar a produtividade, como garantir segurança, como modernizar a saúde ou como fazer o país crescer sem quebrar as contas públicas. Discute-se quem gritou mais alto, quem lacrou melhor e quem conseguiu viralizar primeiro.

Essa é a tragédia da nossa política. O Brasil precisa de projeto, mas recebe palanque. Precisa de planejamento, mas recebe promessa. Precisa de responsabilidade, mas recebe teatro. E o pior: muitas dessas promessas desaparecem 24 horas depois da eleição. Passado o voto, o discurso heroico vira negociação de gabinete, a indignação vira conveniência e o eleitor volta para a fila do posto de saúde, para o ônibus lotado, para o imposto alto e para a insegurança de sempre.

Não há ingenuidade possível. A campanha já começou na prática, ainda que vestida de pré-campanha. Os disfarces existem porque a legislação exige, mas a intenção é clara. O eleitor não deve se deixar enganar pela embalagem. Mais importante do que a frase bonita é perguntar: qual é o plano? Como será feito? Quanto custa? Quem paga? Em quanto tempo? Com quais prioridades? Sem essas respostas, tudo é apenas palanque.

A democracia não se fortalece quando a eleição vira campeonato de xingamentos. Ela se fortalece quando o eleitor exige conteúdo, cobra coerência e rejeita a política do espetáculo vazio. Como é improvável que os candidatos façam isso por vontade própria, caberá ao cidadão aumentar o nível da cobrança. Do contrário, teremos mais uma eleição barulhenta, agressiva e pobre em soluções — exatamente o tipo de campanha que ajuda candidatos a vencer, mas raramente ajuda o país a melhorar.

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