COP30 – O que a ausência de grandes potências sinaliza para a agenda climática.

Com baixas de chefes de Estado de países centrais e representações rebaixadas, Belém recebe uma COP em que o simbolismo político perde força.

A COP30, que ocorre em Belém (PA) entre 6 e 21 de novembro de 2025, começou com um dado incômodo: menos de 60 líderes confirmados para a cúpula de chefes de Estado e ausências de nomes de grande peso geopolítico. Estados Unidos, China e Rússia não vieram com seus líderes máximos — um gesto que pressiona o encontro a se apoiar mais no corpo técnico e em coalizões subnacionais do que no impulso político do topo. A pergunta é inevitável: isso enfraquece a pauta ambiental? A resposta curta: reduz o alcance político, mas não paralisa as negociações.

Na prática diplomática, a presença de chefes de Estado serve para destravar compromissos: acena para metas mais ambiciosas, dinheiro novo e sinalizações regulatórias (como datas-limite para combustíveis fósseis e prazos de NDCs). Quando o nível cai para vice-primeiros-ministros, ministros ou enviados, o processo tende a ficar mais técnico e defensivo, com anúncios menores e linguagem de consenso que evita rupturas. O risco para Belém é claro: menos headline, mais nota de rodapé — e, portanto, menos pressão doméstica sobre governos para entregar.

Ainda assim, não é o fim da linha. Em paralelo ao vácuo de cúpula, entram em cena lideranças subnacionais e setoriais (governadores, prefeitos, reguladores, bancos de desenvolvimento e o setor privado), capazes de puxar acordos temáticos (transição energética, desmatamento, adaptação urbana) e formatar financiamento com bancos multilaterais e o mercado de capitais. Esse movimento segura o processo e pode produzir avanços discretos, mas sem o efeito-âncora de um gesto presidencial, a ambição tende a encolher.

Outro fator que puxa para baixo é logístico: a crise de hospedagem e custos em Belém encolheu delegações de países em desenvolvimento e limitou a participação de sociedade civil. Menos vozes no pavilhão significa menos pressão pública e menos diversidade na construção do texto final — o que, na média, favorece posições conservadoras nas salas de negociação.

Em síntese: a ausência de líderes das maiores potências enfraquece o sinal político da COP30 e diminui a probabilidade de anúncios relevantes em metas, prazos e financiamento. O processo técnico segue — e pode entregar avanços incrementais —, mas a chance de um momento “Paris” diminui sensivelmente. Para reverter o quadro, será preciso que quem está em Belém compense com resultados concretos: fundos com dinheiro novo, calendários verificáveis e mecanismos de implementação que sobrevivam ao noticiário.

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