Democracia não é retórica: o problema está em normalizar aliados autoritários
Na avaliação deste portal, Lula tem todo o direito de sustentar sua visão ideológica, mas erra ao tratar regimes e lideranças autoritárias como se fossem compatíveis com o conceito democrático.

Luiz Inácio Lula da Silva é um presidente experiente, com trajetória, repertório político e uma visão de mundo muito clara. O ponto, porém, não está em ele ter convicções ideológicas à esquerda ou em manter afinidades internacionais coerentes com sua formação política. Isso é legítimo. O problema, na avaliação deste portal, começa quando essa visão é apresentada ao público como se fosse expressão natural de democracia, mesmo quando envolve complacência, relativização ou solidariedade política a governos e regimes que não se sustentam nos padrões democráticos liberais.
O episódio mais recente ajuda a ilustrar esse raciocínio. O governo brasileiro condenou oficialmente os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, classificando a ação como grave e defendendo a via diplomática. O direito internacional merece, sim, ser lembrado. Mas a crítica brasileira recaiu sobre a ação militar americana e israelense, não sobre a natureza do regime iraniano, amplamente acusado por governos ocidentais de repressão interna e apoio a grupos armados na região. Na prática, o gesto reforça uma constante da política externa lulista: severidade com democracias ocidentais e indulgência com regimes de força.
Essa lógica não é nova. Em 2023, ao receber Nicolás Maduro em Brasília, Lula afirmou que a Venezuela era vítima de uma “narrativa” sobre antidemocracia e autoritarismo. A declaração gerou reação imediata de outros presidentes sul-americanos e deixou claro um traço recorrente de seu discurso: a tentativa de suavizar a natureza autoritária de aliados ideológicos. Na visão deste portal, não há problema em defender diálogo diplomático com qualquer país. O erro está em reembalar ditaduras ou autocracias como se fossem apenas vítimas de interpretação adversa.
No plano interno, os sinais simbólicos caminham na mesma direção. Lula comemorou a chegada de Flávio Dino ao STF dizendo que o país colocava, pela primeira vez, “um ministro comunista” na Suprema Corte. A frase foi tratada por aliados como retórica para dialogar com a juventude de esquerda, mas ela revela algo maior: o apreço do presidente por uma moldura ideológica que ele não esconde e que procura valorizar publicamente.
É verdade que, no caso do Hamas, o governo brasileiro condenou oficialmente os ataques de 7 de outubro de 2023. Esse registro factual precisa ser feito. Ainda assim, Lula e seu governo concentraram, ao longo do conflito, o discurso político muito mais na crítica a Israel do que na centralidade do terrorismo cometido pelo grupo, o que alimentou a percepção de desequilíbrio e seletividade moral.
Também não é irrelevante lembrar que o Foro de São Paulo nasceu em 1990 por iniciativa do PT, em articulação com partidos de esquerda da América Latina e do Caribe, num ambiente político historicamente associado a Lula e a Fidel Castro. O foro, por si só, não prova adesão automática a ditaduras, mas ajuda a entender a matriz política que aproxima o lulismo de experiências autoritárias tratadas muitas vezes com tolerância excessiva.
Resumindo: na opinião deste portal, o debate não é sobre o direito de Lula ter uma ideologia. Ele tem. O debate é outro: democracia não pode ser usada como rótulo elástico para encobrir simpatias, relativizações ou blindagens de regimes que não respeitam plenamente liberdade política, oposição real, imprensa livre e alternância de poder. Quem deseja se apresentar como democrata precisa aplicar o critério com coerência — inclusive aos próprios aliados.
Hashtags: #Lula #Democracia #Politica #Brasil #Celac #Iran #Venezuela #STF #Geopolitica #Opiniao
