Mirim Doce: a capital nacional do melhor arroz, onde o interior sustenta identidade, trabalho e paisagem
Série “Cidades de SC”

Mirim Doce é uma daquelas cidades pequenas que carregam um título grande. Localizada no Alto Vale do Itajaí, entre morros, rios e extensas áreas verdes, o município ganhou projeção nacional ao ser reconhecido oficialmente como a Capital Nacional do Melhor Arroz. Mais do que um rótulo, o título ajuda a traduzir o que define Mirim Doce: uma cidade moldada pela agricultura, pelo cuidado com a terra e por uma relação muito próxima entre trabalho, família e comunidade.
A história do município está ligada ao processo de colonização do interior catarinense, especialmente a partir da presença de famílias descendentes de alemães e italianos que se estabeleceram na região ao longo do século XX. O nome Mirim Doce tem origem indígena e faz referência às águas da região, elemento central para a agricultura e, em especial, para o cultivo do arroz. A emancipação veio como resposta à necessidade de organização administrativa de uma comunidade rural em crescimento, que precisava de autonomia para gerir produção, infraestrutura e serviços básicos.
Com pouco mais de dois mil habitantes, Mirim Doce mantém um perfil social fortemente comunitário. A cidade funciona em outro ritmo: as relações são próximas, o comércio é essencialmente local e a vida pública gira em torno da igreja, da escola, das associações e das festas tradicionais. É um município onde quase todo mundo se conhece e onde decisões coletivas ainda passam muito pela conversa direta, pelo vínculo e pela confiança entre as pessoas.
A economia é claramente definida pela agricultura, com destaque absoluto para a rizicultura. O arroz produzido em Mirim Doce é reconhecido pela qualidade, produtividade e técnicas de cultivo, resultado de décadas de aperfeiçoamento, uso responsável da água e conhecimento passado de geração em geração. O título de Capital Nacional do Melhor Arroz reforça esse protagonismo e ajuda a posicionar a cidade no mapa agrícola brasileiro. Ao lado do arroz, outras culturas e a pecuária de pequeno porte complementam a renda das famílias e mantêm a diversidade produtiva do interior.
Esse vínculo com o campo se reflete diretamente na identidade local. Em Mirim Doce, a lavoura não é apenas uma atividade econômica — ela organiza o calendário, define rotinas e influencia até a forma como a cidade celebra suas conquistas. Festas ligadas à colheita, eventos comunitários e encontros rurais costumam reunir moradores e visitantes em torno da comida, da música e da valorização do produtor. A culinária segue essa lógica: pratos simples, fartos e feitos com ingredientes locais, com o arroz ocupando lugar central na mesa, seja em receitas tradicionais do dia a dia, seja em preparos especiais durante festas e eventos.

As belezas naturais da região aparecem de forma discreta, mas constante. Mirim Doce está cercada por paisagens típicas do Alto Vale do Itajaí, com morros, áreas de mata, rios e estradas rurais que convidam à contemplação e ao turismo de experiência. Não é uma cidade de grandes atrações turísticas estruturadas, mas de cenários autênticos, procurados por quem busca tranquilidade, contato com a natureza e vivência rural. Trilhas, áreas verdes e propriedades agrícolas abertas à visitação ajudam a construir um turismo simples, conectado ao modo de vida local.
O que diferencia Mirim Doce, no entanto, é a capacidade de transformar algo cotidiano — o arroz — em identidade, orgulho e reconhecimento nacional. Em um estado marcado por cidades industriais, polos turísticos e centros urbanos dinâmicos, o município se destaca por mostrar que o interior também tem protagonismo e que excelência não depende de tamanho. Ao valorizar o produtor, a terra e o conhecimento agrícola, Mirim Doce preserva uma forma de vida que sustenta boa parte da economia catarinense, ainda que nem sempre esteja sob os holofotes.

Mirim Doce é, no fim das contas, um retrato fiel do interior catarinense: pequeno em população, mas grande em significado. Entre lavouras alagadas, mesas fartas e relações próximas, a cidade construiu uma narrativa própria, em que trabalho, natureza e comunidade caminham juntos. Como Capital Nacional do Melhor Arroz, ela não apenas produz um alimento — produz identidade, pertencimento e uma história que continua sendo cultivada todos os dias.
