Quando a base enterra o relatório, enterra junto a confiança do cidadão

A rejeição do relatório final da CPMI do INSS pela base de sustentação do governo Lula não apaga as suspeitas investigadas pela comissão, mas reforça uma percepção política grave: quando o poder escolhe bloquear conclusões em vez de esclarecer fatos, a sociedade tende a enxergar mais proteção do que compromisso com a verdade.

Imagem gerada por IA

Para surpresa de poucas pessoas, a base de sustentação do governo Lula que integrava a CPMI do INSS derrubou o relatório final apresentado pelo relator Alfredo Gaspar. Na prática, a comissão terminou sem parecer oficial, depois de sete meses de trabalho, justamente no momento em que deveria entregar uma resposta institucional mais clara sobre um escândalo que atingiu aposentados e pensionistas, muitos deles idosos que dependem de cada parcela do benefício para sobreviver. A rejeição ocorreu na madrugada deste sábado, 28 de março, por 19 votos contrários e 12 favoráveis.

O dado político mais relevante não é apenas o placar. É o sentido dele. A comissão foi criada para investigar fraudes no INSS envolvendo descontos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas. Ou seja, tratava-se de uma apuração sobre um problema concreto, socialmente devastador e moralmente revoltante. Ainda assim, a maioria ligada ao Palácio do Planalto preferiu rejeitar o texto final do relator, enterrando o documento que pedia o indiciamento de 216 pessoas e encerrando a CPMI sem um parecer oficial.

Entre os votos contrários ao relatório estavam Soraya Thronicke, Randolfe Rodrigues, Jaques Wagner, Eliziane Gama, Humberto Costa, Jussara Lima, Rogério Carvalho, Augusta Brito, Teresa Leitão, Meire Serafim, Átila Lira, Orlando Silva, Rogério Correia, Ricardo Ayres, Alencar Santana, Paulo Pimenta, Lindbergh Farias, Neto Carletto e Dorinaldo Malafaia. Mais do que uma divergência técnica, o resultado mostrou que houve uma decisão política de não permitir que o texto de Gaspar se transformasse na conclusão formal da comissão.

É nesse ponto que a pergunta central deixa de ser apenas legislativa e passa a ser moral e política: qual é o interesse de um governo e de sua base em bloquear a consolidação de um relatório sobre um caso que prejudicou justamente a parcela mais vulnerável da população? A rejeição do texto não absolve ninguém automaticamente, nem encerra a necessidade de apuração. Mas transmite à sociedade um sinal ruim, porque parece priorizar a contenção política de danos em vez do esforço máximo por responsabilização. Isso não prova intenção de acobertamento, mas alimenta com força essa suspeita no imaginário público.

O problema se agrava porque o ambiente da CPMI, ao longo de sua reta final, foi sendo contaminado por destempero, agressões e narrativas. Em vez de prevalecer a serenidade de quem quer esclarecer os fatos, o que ganhou espaço foram ofensas pessoais, acusações explosivas e tentativas de deslocar o centro do debate. O caso mais simbólico foi o do deputado Paulo Pimenta, que atribuiu ao governo Bolsonaro a abertura das portas para as fraudes no INSS, afirmando que “quem abriu a porta do esgoto foi o governo Bolsonaro”. É legítimo sustentar uma interpretação política, mas imputações dessa dimensão exigem lastro robusto, documentação e nexo claro entre discurso e prova. Quando a retórica vem antes da demonstração objetiva, cresce a percepção de que a narrativa está sendo usada como arma de defesa.

Esse é, talvez, o ponto mais sensível de todo o episódio. De forma geral, o volume maior de agressividade, confronto verbal e construção narrativa tem partido de parlamentares ligados à situação. E isso importa porque revela vulnerabilidade política. Quem está confortável com os fatos normalmente aposta em transparência, investigação e clareza. Quem se sente acuado tende a deslocar o debate, atacar adversários e transformar a discussão em guerra de versões. Não é uma regra absoluta, mas é um padrão reconhecível na política.

Por isso a rejeição do relatório final pesa tanto. Não se trata apenas de um documento derrotado em votação. Trata-se da imagem de uma base governista enterrando, no plano formal, o principal produto de uma comissão criada para apurar prejuízos sofridos por aposentados e pensionistas. Ainda que o presidente da CPMI, Carlos Viana, tenha afirmado que uma cópia do relatório de Alfredo Gaspar será enviada ao Supremo Tribunal Federal, à Procuradoria-Geral da República e a órgãos de fiscalização e investigação, o dano político já está posto: o Congresso entregou à população a cena de um escândalo grave terminado sem conclusão oficial da própria comissão que o investigava.

No fim, o recado que fica é péssimo. Para o aposentado lesado, parece que a política brigou mais por versões do que por justiça. Para o contribuinte, parece que a disputa partidária falou mais alto do que a proteção institucional dos mais frágeis. E para a democracia, sobra mais um desgaste: quando o poder bloqueia a conclusão de uma investigação tão sensível, não elimina a desconfiança. Ao contrário, amplia.

O Brasil precisa de investigação séria, responsabilização objetiva e respeito com quem trabalhou a vida inteira para receber um benefício muitas vezes insuficiente até para o básico. Quando a base do governo ajuda a enterrar um relatório dessa natureza, o que ela enterra junto é um pedaço da confiança pública. E confiança, quando perdida, custa muito mais caro do que qualquer derrota de ocasião no plenário.

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