São Bento do Sul: tradição centenária, capital do móvel e um patrimônio que se visita a pé
Série “Cidades de SC”

São Bento do Sul é o tipo de cidade que combina, com naturalidade, duas forças que nem sempre andam juntas: a preservação do passado e a vocação para competir no mercado global. No Planalto Norte catarinense, o município cresceu a partir da colonização ligada à Colônia Dona Francisca e consolidou uma identidade marcada pela imigração, por casas antigas e por uma cultura comunitária que ainda se percebe nas festas, na gastronomia e na maneira organizada como a cidade se apresenta. Em 2022, São Bento do Sul tinha 83.277 habitantes, com densidade de 167,97 hab./km², segundo o IBGE.
A história local é contada, muitas vezes, em datas simbólicas. O município celebra sua trajetória a partir da imigração organizada do século XIX e, em 2023, comemorou 150 anos, reforçando a leitura de que 1873 é um marco central da formação da colônia que deu origem à cidade. Esse passado não ficou preso em livros: ele aparece na arquitetura, em praças e em roteiros turísticos que transformam o patrimônio em experiência. Um bom exemplo é a Rota do Patrimônio, organizada em três roteiros culturais voltados à contemplação de imóveis tombados e bens materiais da história são-bentense — um convite para conhecer a cidade caminhando, de bicicleta ou de carro, com mapas e orientação para cada modalidade.

E é aqui que entram as “coisas especiais” que você citou, como as casas centenárias. São Bento do Sul tem um conjunto arquitetônico que valoriza construções históricas e espaços que reproduzem a atmosfera dos primeiros tempos. No Parque 23 de Setembro, por exemplo, é possível ver de perto a Casa dos Imigrantes, uma réplica das antigas casas que pertenceram aos colonos e ajuda a contar, de forma visual, como era a vida no início da ocupação da região. Já o Museu Municipal Dr. Felippe Maria Wolff ocupa um prédio tombado construído em 1880, originalmente residência do primeiro médico da colônia, e funciona como uma espécie de cápsula do tempo, reunindo memória, objetos e narrativa histórica do município.
Se a cidade emociona pela história, ela impressiona pela economia. São Bento do Sul é conhecida como um dos grandes polos moveleiros do Brasil e, segundo o Governo de Santa Catarina, o município registrou em 2024 o maior faturamento do país em exportação de móveis, com US$ 81,9 milhões, mantendo a liderança nacional em exportações de móveis desde 2015. Essa vocação industrial molda o cotidiano: gera empregos, atrai fornecedores, movimenta logística e dá à cidade um perfil de trabalho muito característico do Planalto Norte — produtivo, técnico e voltado à qualidade.
Ao mesmo tempo, São Bento do Sul tem um lado social e cultural que mantém a cidade aquecida fora do expediente. A festa que melhor resume essa identidade é a Schlachtfest, evento tradicional que celebra a herança germânica com música, dança, chope e gastronomia típica, realizada pela Sociedade Ginástica e Desportiva local — uma festa que a própria organização descreve como parte da cultura e da comunidade são-bentense. E quando a conversa vai para a mesa, a cidade também se impõe: a gastronomia regional preserva sabores de colonização, com destaque para pratos como marreco recheado com repolho roxo, joelho de porco e conservas, além do apelo forte dos cafés coloniais com produtos locais.
Para completar o retrato, há o São Bento do Sul do ar puro e da natureza serrana, que aparece em parques e roteiros de aventura do entorno. O próprio portal de turismo do município divulga experiências integradas ao Circuito das Araucárias, que conecta São Bento do Sul e cidades vizinhas em rotas de caminhada e cicloturismo, misturando interior, paisagens e paradas culturais. Assim, mesmo sem ser um destino “óbvio” de turismo de massa, a cidade oferece um conjunto muito completo: patrimônio para quem gosta de história, indústria para quem entende o peso econômico do Norte catarinense, gastronomia de tradição e natureza para quem busca descanso.

São Bento do Sul, no fim, é uma cidade que se visita como quem folheia um álbum antigo — mas com um detalhe importante: enquanto você olha para casas históricas, museus e parques com araucárias, a cidade continua trabalhando e exportando, provando que tradição e desenvolvimento podem morar na mesma rua.
