Sem projeto coletivo, a direita continuará entregando vantagem à esquerda
A força eleitoral do conservadorismo no Brasil é real, mas sua recorrente incapacidade de transformar maioria social em coordenação política continua sendo uma de suas maiores fragilidades — e Santa Catarina resume bem esse problema.

A pergunta continua sendo necessária: a direita brasileira tem, de fato, um projeto de país ou segue presa, em boa medida, a projetos individuais? É possível dizer que existe uma visão conservadora de Brasil, sim. O problema é que, quando chega a hora de construir estratégia, o campo da direita frequentemente se fragmenta antes de consolidar um objetivo maior. E, quando isso acontece, a vantagem potencial se dissolve.
A diferença para a esquerda está menos na ausência de divergências — porque elas também existem ali — e mais na forma como são administradas. No campo progressista, os conflitos costumam ser tratados internamente até que se forme uma linha comum de ação. Já na direita, a disputa por protagonismo muitas vezes vem antes da construção do projeto coletivo. O resultado é conhecido: forças que poderiam caminhar juntas passam a competir entre si, enfraquecendo o conjunto e facilitando o trabalho do adversário.
Santa Catarina é um retrato claro dessa contradição. O estado tem perfil majoritariamente conservador, mas justamente por isso deveria ser exemplo de organização política madura desse campo. Não é o que se vê. O governador Jorginho Mello lidera com folga a disputa pela reeleição, enquanto outros nomes do mesmo espectro, como João Rodrigues, seguem ocupando espaço próprio e mantendo a divisão antecipada do campo conservador. Pesquisa AtlasIntel divulgada em 1º de abril mostrou Jorginho com 49,4% em um cenário de primeiro turno, contra 21,4% de João Rodrigues.
O ponto que precisa ser corrigido com clareza é o de Gelson Merísio. Ele já foi, de fato, identificado com o campo conservador em Santa Catarina, mas o cenário político atual é outro. Hoje, Merísio é tratado nas articulações de 2026 como nome da esquerda ou da centro-esquerda para disputar o governo do Estado, com apoio do entorno do presidente Lula e diálogo direto com lideranças desse campo. Reportagens recentes mostram que ele vem sendo cotado como candidato da esquerda em SC e que o próprio Décio Lima o definiu como “o candidato do Lula em Santa Catarina”.
Isso reforça ainda mais a tese central. Enquanto a esquerda trabalha para montar palanque, harmonizar interesses e fechar uma frente ampla, a direita continua muitas vezes discutindo antes quem será o protagonista, e só depois qual será o projeto. Em política, essa ordem faz diferença. Quem pensa primeiro no conjunto tende a chegar mais competitivo ao momento decisivo. Quem pensa primeiro no espaço individual corre o risco de perder força mesmo onde é maioria.
No plano nacional, o problema é semelhante. A direita continua forte eleitoralmente, mas nem sempre consegue converter essa força em coordenação duradoura. Falta, em muitos momentos, aquilo que a esquerda costuma demonstrar com mais disciplina: capacidade de fechar fileiras quando o cenário exige. Sem isso, a direita pode até ter base social robusta, mas continuará oferecendo ao adversário uma vantagem que não nasce da superioridade numérica, e sim da superioridade tática.
No fundo, a escolha é simples, embora politicamente difícil: pensar primeiro no próprio projeto ou em um projeto de país. Enquanto parte expressiva da direita não responder isso com mais maturidade, seguirá desperdiçando capital político onde é mais forte. E, nesse cenário, a esquerda agradece.
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